Devoradores de Estrelas é puro coração
Hollywood, Ryan Gosling, IMAX. Nada disso é tão grande, e grandioso, quanto o coração do filme que estréia nessa quinta, 19 de Março.
Quando a gente fala que uma pessoa tem um coração de pedra, a gente tá querendo dizer que aquilo que, em pessoas normais, serve pelo menos pra bombear o sangue pro nosso corpo e nos manter vivos e seguindo em frente, nessas pessoas não serve pra muita coisa. É literalmente um negócio imóvel, inanimado, que só ocupa espaço.
Não são exatamente pessoas ruins, é diferente. São pessoas que, por exemplo, assistem ao BBB e não torcem por Ana Paula Renault. Que dizem que não entenderam O Agente Secreto porque não sabiam a época em que filme se passava. Que acham que Valor Sentimental mereceu aquele Oscar. Que acham sim que o Neymar Jr. deveria ir pra Copa com a Seleção. Que nunca tocaram em um único seio na vida. São pessoas que estão fisicamente ao nosso lado muitas vezes, mas nunca estão verdadeiramente ali com você.
Devoradores de Estrelas, adaptação do livro Andy Weir, que também escreveu Perdido em Marte, é sobre pessoas com o coração de pedra. Mas é também sobre um enorme, gigante, colossal coração de pedra que não tem cara, não tem boca e não passa da altura do joelho, mas domina aquela tela gigante (eu assisti ao filme em IMAX, então imagina) e cativa todo um universo. Ou dois. Ou quantos existirem.
Como acontece em quase todos os filmes de longas viagens espaciais, Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda depois de um sono profundo que ele mal sentiu, tirando os músculos e demais membros que o ignoram completamente. Uma inteligência artificial começa a fazer análises, explica mais ou menos onde estão e enfim, você já viu esse filme antes. Aqui, porém, as coisas mudam um pouco: não só o resto da tripulação está morta, como o nosso protagonista não faz a menor ideia do que tá fazendo ali.
Ele sabe tudo o que ele precisa fazer. Ele só não sabe por que ele sabe.
Enquanto sua memória é destravada aos poucos, junto com as nossas idas à Terra, Grace começa a compreender mais a missão. Começamos numa sala de aula de uma escola primária, onde ele é professor de física, conhecemos uns pontinhos pretos que estão consumindo o Sol e esfriando a nossa bola de lama e vamos escalando até o dia em que ele é colocado naquela ESPAÇONAVE pra salvar o mundo. A gente só não aprende sobre Ryland Grace tanto quanto ele aprende sobre si, porque ele tá absolutamente sozinho e fazendo aquilo muitas vezes contra a própria vontade. Até que ele conhece o Rocky.
Rocky é do exoplaneta 40 Eridani A b (que sim, existe na vida real e sim, tem a ver de leve com aquele planeta Vulcano de Star Trek). É esse alienígena de pedra que respira amônia e vive numa gravidade 20x maior que a da Terra quem inicia os contatos imediatos de diversos graus e em momento algum a gente sente que aquilo seja algo hostil. O humano, claro, demora a entender que Rocky só quer conversar. Até presentes ele entrega. É como uma criança (de centenas de anos) querendo fazer amigos, sem amarras, sem bagagens. É da natureza dele.
Cientistas que são, os dois conseguem se comunicar através da matemática e, a partir daí, deixa de ser um filme que vemos de uma certa distância, numa tela enorme, e se torna um abraço. Uma aula do que é amor, empatia, solidariedade, amizade. Ninguém espera nada de ninguém, mas todo mundo faz tudo por todo mundo.
Rocky está ali o tempo todo. Ele é ali. Ele não precisa de qualquer razão pra cuidar, pra ser empático. Ele é o cuidado. Ele é empatia. Rocky é coração, que faz com que Devoradores de Estrelas te torça como um pano molhado pra que você chore, o que acontece com grande facilidade, mais de uma vez.
Devoradores de Estrelas tem uma pitada (não sem motivo, é bom deixar claro) de misantropia, mas é puro coração. Uma pedra com cinco membros idênticos, sem olhos e bocas e ouvidos que acaba ensinando muito do que é ser humano, de humanidade... ou o que deveria ser humano, do que deveria ser humanidade.
A vida é foda. A gente mal nasceu e já tá lá, chorando desesperado querendo voltar pro quentinho da nossa mãe. E ela não para, é uma porrada atrás da outra que vai fazendo com que a gente endureça pouco a pouco. Que a gente desconfie de tudo, não aceite qualquer coisa. Que a gente de repente esteja fisicamente aqui, mas não verdadeiramente aqui. Que o nosso coração vire uma pedra pra que a gente consiga sobreviver aos horrores do nosso Mundo.
Devoradores de Estrelas começa um filme sobre salvar justamente esse mundo, com pessoas horríveis, que fazem coisas horríveis, mas também com pessoas que só estão ali, sem estar ali. É um filme que tem um marketing super focado no fato de ter sido filmado com IMAX, estrelado pelo Ken. Com o passar do tempo, porém, a gente percebe que se trata de uma história sobre um alienígena que mostra para um humano que é possível existir e como isso é bom. Uma história sobre um humano que não existia nem pra ele mesmo e que precisou de um coração de pedra pra fazer o seu, frágil, bater como nunca antes.
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