Eu quero ficar pra trás
Quem foi disse que a IA veio pra ficar e por que eu deveria acreditar nessa pessoa?
Você já ouviu essa frase em algum lugar. Anúncio de curso no Instagram, post no LinkedIn ou algum fudido que você pode eventualmente considerar amigo. Alguém já disse que a “IA chegou pra ficar”. Que “se não surfar nessa onda, vai ficar pra trás”.
Pra trás do que, exatamente? E a ia chegou onde, especificamente? Porque um dos últimos efeitos dessa história é tirar a opção de arrastar pra direita ou pra direita e trocar por um agente de IA que vai fazer os matches por você, baseado numa lista de coisas que você quer e espera. Ok que o swipe não é das melhores ideias realmente, mas deixar uma parte da sua vida, da sua humanidade, nas mãos de um robô é, acima de tudo, perigoso.
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por Thiago Borbolla
Ficar desempregado involuntariamente é horrível. Começa no momento em que alguém te comunica que, a partir de agora, você não tem mais um salário pra receber no fim do mês. Se for PJ, então, pior ainda, porque você perde toda e qualquer segurança que tinha pra absolutamente tudo -- comer, cuidar da saúde, se divertir e até mesmo trabalhar. O mundo desaparece sob seus pés e, se você for por portador de CID F41, você cai num buraco negro.
Mais ruim que tudo isso, porém, é ter de procurar um emprego. Lida-se com toda a insegurança e ansiedade do desemprego enquanto é preciso muitas vezes se humilhar, a começar do fato que de repente o LinkedIn se torna a rede social que você mais acessa. Tantas notificações, tantos textos errados, um clima insuportável que é bem rápido perceber que sim, Instagram, Facebook e X são toxicos, mas não chegam aos pés daquele umbral que conecta num mesmo lugar o pior da humanidade.
Piora, claro. Entre as muitas vagas que você encontra por lá, um número bastante elevado exige que se faça uma série de dinâmicas que automaticamente colocam um questionamento muito válido de que se tudo aquilo vale a pena. Testes de lógica, testes de escrita, gravação de vídeos em formatos específicos... e IA. Porque existe sim muito poço pra se afundar.
Absolutamente todas essas dinâmicas, hoje em dia, são avaliadas por um agente de IA. Não sei exatamente o que elas estão programadas pra buscar, mas definitivamente não é o que se tem pra entregar e que muito provavelmente seria de fato uma boa adição aos quadros daquela empresa. Até inventaram o termo ATS (Applicant Tracking System) para a criação e leitura automatizada de currículos, que parece que funcionam na base do SEO. Não existe mais alguém que bata o olho na lista de coisas que você já realizou profissionalmente e se interesse por algo; hoje existe uma IA programada pra encontrar palavras-chave dentro de um formato pré-definido e azar de quem não souber fazer isso. Azar de quem não tiver grana pra pagar uma outra IA que possa fazer isso -- o que, é bom que se diga, não garante absolutamente nada, também.
Outro dia apareceu na minha caixa de entrada um e-mail com o título “Você foi recomendado para a vaga Chef Executivo | Presencial (São Paulo - SP) 🚀”, enviado por uma dessas plataformas onde ser humanos profissionais são colocados pra serem obliterados. “Seu perfil encontrado no banco de talentos é compatível com uma vaga aberta no(a) XXXX”. Não posso negar que meu arroz é o melhor arroz do mundo. Ou melhor, os dois melhores do mundo, porque a versão de microondas também é ótima. Meus mistos-quentes e meus baurus são dignos de canções. Mas, no geral, eu não faço muita coisa além de colocar suprimentos pré-preparados numa AirFryer. E, também sem medo de errar, posso afirmar que meu currículo lista principalmente minhas experiências como jornalista e publicitário, com texto em específico.
É tudo tão ruim, tão torto, tão desgraçado, que estamos sendo contratados por geradores de lero-lero. Um pega tudo o que você fez e organiza direitinho pra outra aceitar. É só no final que surge alguém pra filtrar ainda mais o que já foi filtrado, depois que muita gente foi completamente amassada, moída e remoída, no processo.
Verdade seja dita, porém, a gente pode viver sem trabalho. Fomos desenhados biologiamente pra ficar pegando frutinhas em árvores e brincando com cachorros, não pra pagar a próxima viagem pro Guarujá ou Europa de alguém que se coloca numa posição do que acredita ser de elite. Não nascemos pra lotar um escritório de gente mal paga e sem nenhum direito trabalhista só porque uma pseudo-hippie gosta ver aquele lugar, que ela paga pra satisfazer a ela mesma, cheio de gente. Não viemos a esse mundo pra sermos publicitários e o tempo todo tentar vender algum produto que ninguém precisa, em momentos inoportunos. Pra ver doido dançar enquanto anuncia Bet e desgraça a cabeça de tanta gente.
A gente tá aqui pelo amor. Pelo toque na pele um do outro, pra ouvir a voz no ouvido, pra derreter com sorrisos e em risos. Pra ver olhos brilhando, pra caminhar juntos. Seja romanticamente, fraternalmente ou como amizade, estamos aqui pra não estarmos sozinhos. Pra compartilhar emoções, experiências... e até isso estão querendo tirar da gente.




