My memórias de adolescente don't lie
Shakira está de volta reunindo milhões aos seus pés na praia de Copacabana. Entre 1996 e 1997, porém, ela precisou percorrer os mais aleatórios rincões do Brasil pra apresentar seus Pies Descalzos.
Houve um momento da história da humanidade em que não só era possível ouvir Jovem Pan, como era realmente legal fazer isso. Um tempo em que o que conhecemos hoje como música pop era chamada apenas de dance (ou poperô, se você fosse do rock e ouvisse principalmente a 89), com suas mais diversas versões de clássicos nas 7 Melhores, como Total Eclipse of the Heart, de Nikki French, e Because You Loved Me, de Suzann Rye. Um tempo tão específico que até músicas em espanhol tocavam normalmente, como La Rubia Del Avión, de Los Argentos, e, óbvio, Macarena — sem contar Se Fue e La Soledad, de Laura Pausini.
Aqueles meados dos anos 90 fizeram muito adolescente querer ser promoter quando crescesse, garantindo seus VIPs nas matinês de domingo nas DANCETERIAS. Elas existiam aos montes, tinha até dentro de shopping, e uma das mais icônicas era o Moinho Santo Antônio, ali na Mooca.
Originalmente um conjunto de fábricas e galpões, os Grandes Moinhos Minetti Gamba foram construídos em 1909 e, ao longo dos anos, abrigaram em uma área de 12 mil m² uma indústria gráfica, uma fábrica de óleo, produção de tecido, farinha, sabão, óleo vegetal e outros. Em 1994, depois de um tempo abandonado, um grupo de empresários se reuniu pra criar aquela balada que, durante a semana e aos sábados, funcionava de noite pra adultos e, aos domingos, abria suas portas no fim da tarde pros jovens pensarem que eram alguma coisa com suas polos Ralph Lauren, as meninas de Topete McDonald’s, bolsa/mochila de pelúcia com Band-Aids e pulseiras de corda de violão que os garotos colecionavam como se significassem qualquer coisa. Era lá onde inúmeras pessoas davam seus primeiros beijos — sendo que “muita gente” não inclui este que vos escreve — e também onde a catarse coletiva adolescente acontecia: de Milla, do Netinho, ao “dia em que os Mamonas morreram”, havia uma imensidão de hormônios querendo ser liberados por ali.


Além de danceteria (o conceito de balada não existia ainda, muito menos o de rolê), o lugar também recebia shows, inclusive pra molecada. Todos aqueles que citei ali (tirando Laura Pausini, infelizmente) eu não só ouvia no rádio e nas pistas do Moinho, como cheguei a ver ao vivo. Foi numa dessas que eu descobri que rubia, em espanhol, é loira e não ruiva. Era normal, afinal de contas, tipo um underground do pop.
Shakira era um desses nomes que se ouvia bastante na Jovem Pan. Estava sempre nas pistas, ajudando a despertar aqueles momentos de libertação em que milhares de adolescentes largavam seus Gudangs e saíam correndo dos mais diversos ambientes pra gritar “Perteneciste a una raza antiguaaaa” (mentira, ninguém largava nada porque não era proibido fumar em lugar fechado ainda, mesmo que menores o fizessem). Era de se esperar que, se viesse pro Brasil, haveria uma enorme comoção. Ela já tinha até gravado versões dance e em português dos maiores sucessos de Pies Descalzos!
Das 75 datas da turnê, 36 delas foram aqui. Só esses números já a colocariam entre os 10 artistas internacionais que mais fizeram shows no País até hoje, 30 anos depois, e correspondem a mais da metade de todos os outros que ela fez nesses 10950 dias.
Entre Novembro e Dezembro de 1996, ela se apresentou em cidades como Manaus, Belém, Belo Horizonte, Salvador e Barretos. Foi pra Colômbia, Europa, Chile e voltou, em Março de 1997, passando por São Paulo, Santos, Santo André, Campinas e Mogi das Cruzes. Deu uma passada na Bolívia e retornou pra mais shows em Bagé, Uruguaiana, Pelotas, entre outras cidades. Em Agosto ela voltou de novo, repetindo também algumas cidades como São Paulo, Belém, Belo Horizonte e Barretos.
Não é qualquer tipo de exagero dizer que pra onde chamaram ela foi. Algumas cidades dessa lista parecem estranhas, mas quando a gente olha pros lugares específicos dos shows tudo fica ainda mais bizarro. O rodeio de Barretos foi tranquilo perto de clubes esportivos, desses com piscinas e etc, e até Kart Indoor, como em Campos do Jordão.
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O show esquecido na Matinê do Moinho
Eu falei daquele número de shows, mas ele pode ser maior. Se você olhar na Wikipedia, Setlist.fm ou em sites de fãs, vai ver que rolou um show no Moinho Santo Antônio no dia 06 ou 07 de Março de 1997 (os dois dias aparecem, mas é uma apresentação só). Me recordo bem de uma galera que eu conhecia e que conseguiu falsificar RG pra entrar. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, ela também fez um show no mesmo Moinho no dia 09 de Março, um Domingo de matinê. E nesse eu fui. Eu e boa parte da Zona Leste de São Paulo e arredores, porque o show foi anunciado, olha só, na Globo.
Esse vídeo, inclusive, comprova que a lista de shows deve ser maior: não falaram nada do Moinho pros adultos, apenas a matinê. E existe uma chance bem grande de você ver que ela se apresentou em outro lugar nos dias 06 e 07 de Maio…
Shakira estava usando uma calça alaranjada que brilhava, meio vinílica. Lembro que chamava a atenção e até que tinha um animal print. Lembro de olhar bem pra cima pra vê-la, o que significa que eu fiquei bem na frente e... bom, acho que do show mesmo, eu só consigo me lembrar disso. E de que eu estava estreando uma camisa listrada, amarela e azul com gola jeans especialmente nesse dia. E que eu fiquei encharcado de suor. E que eu comprei uma camiseta na banquinha de merch (era só a capa do CD silkada no tecido branco) que usei por anos a fio — camiseta que até minha vó sabia o que significava. E, o que eu sinceramente considero o mais importante, eu me lembro de estar lá.
Eu não estava sozinho, mas definitivamente o que eu vivi naquele dia é meu. Não tenho mais contato com nenhuma das pessoas que estavam comigo (já não eram meus amigos naquela época, imagina agora), mas trago na memória toda a ansiedade, a empolgação, de onde minha mãe me levou pra comprar aquela polo Ralph Lauren que hoje eu não chegaria nem perto. De todo o nervoso pra comprar o ingresso (internet era só BBS, mas pelo menos custou “só” R$20), de toda a experiência que é o que importa no fim das contas, não é? Ainda que eu seja um entusiasta de músicas ao vivo parecidas com as que eu ouço em casa, se fosse só pelas músicas mesmo eu não ia pra show nenhum. ¯\_(ツ)_/¯
Shakira moldou uma boa parte do meu caráter, ao lado da Alanis (com quem ela era comparada pela idade e por “cantar sobre dor de cotovelo”, de acordo com a Folha de S. Paulo na ocasião), e sei até hoje todas aquelas músicas (... ahogandome entre fotos y cuadernos entre cosas y recuerdos que no posso compreender), o que sempre rende bons momentos nos karaokês. Mas eu devo confessar que, com algumas exceções maravilhosas, eu fiquei ali em Pies Descalzos.
Quando ela veio pro Brasil uns dois anos atrás, com a turnê Las Mujeres Ya No Lloran, até pensei em ir, mas não era o que eu queria ver e ouvir de fato. Torci muito pra que ela fizesse como a sua par canadense e saísse comemorando os 30 anos do seu grande álbum — e só umas 4 datas no Brasil já tava bom, nem precisava daquele tanto de 1996 / 1997. Não deve rolar, mas esse show no Rio… eu não consigo sequer me imaginar num rolê desses e, da mesma maneira que se for só pra ouvir a música eu prefiro em casa, ver tudo pelo telão não é algo que me apetece muito. E eu já tenho 42 anos, né? Eu aguentei muito nos meus 13 pra poder me dar esses confortos nesse momento.
Shakira e, especialmente esse show de 09 de Março de 1997, são coisas que eu gosto muito de ter na minha vida. Gosto de falar que fui, especialmente quando estou conversando com jovens — e uma ocasião é especial demais pra mim, lá no saudoso Milo Garage. Duas garotas vieram comentar comigo que eu estava muito empolgado durante uma sequência de músicas, no momento em que tocava alguma do Pies Descalzos. “É que essa é da minha época!”. Eu já tava com 40 ou quase, elas riram e me disseram que tinham 20 e tantos anos. Contei sobre essa vinda dela ao Brasil, que eu estive lá e, risos, uma delas nem nascida era. ;D
Assisti pela TV aos shows da Madonna e da Lady Gaga como um grande evento de cultura pop que de fato são. Sábado eu vou curtir essa da Shakira pro adolescente que um dia eu fui e que fez eu ser quem eu sou hoje.
Só pra constar!
💿 E já que estamos aqui, vamos aproveitar: naqueles tempos, tudo era motivo pra gravar um CD. Fossem os CD-ROMs, que lotavam as bancas de jornal com trocentos joguinhos (muitos realmente legais), fossem os de coletâneas — toda rádio tinha um, revistas as vezes lançavam os seus e rolês como o Moinho também juntavam algumas faixas pro pessoal ouvir nos seus MICROSYSTEMS AIWA.
Infelizmente não há qualquer sinal desses álbuns na internet, mas vou deixar aqui essa playlist criada pelo DJ Ronaldo Gasparian, um dos residentes do Moinho e que, portanto, sabe muito bem o que escolheu colocar aqui.
Quer mais? Tem essa outra, maior e um pouco mais completa. ;)





Uau, voltei aos seus 13 anos, à camiseta polo listrada, nem imagino onde compramos, mas lembro que era cara rs voltei aos meus 41 anos, e fiquei feliz e emocionada ao "ouvir" seu texto, obviamente, amei. Aprendi a gostar da Shakira através de você. Valeu