Nolan enfim abraçou o fantástico (do jeito dele)
Que A Odisseia de Christopher Nolan é boa, todo mundo concorda. Mas a maneira que ele fez pode causar estranheza em uns e empolgação por mais histórias assim em outros. Cinema que chama, né?
No JUDÃO antigo a gente sempre publicou múltiplos textos sobre um único assunto. Quando mandamos pra você os textos sobre X-Men ‘97, até relembramos os tempos de ESPECIAIS que fazíamos.
Agora com A Odisseia, que estreou essa semana no Brasil, tamos repetindo... e vamos aproveitar que estamos aqui pra deixar claro que faremos mais. A ideia básica de todo esse nosso retorno é que a gente escreva e tenha uma plataforma pra publicar e, à partir disso, a gente vê pra onde vai.
Sem contar que é impossível que todo mundo que for escrever sobre algo que viu, leu, ouviu, jogou, tenha visto, lido, ouvido, jogado a mesma coisa. Essa é quase uma exceção, já que claramente o Oda e o Renan assistiram ao mesmíssimo filme e enxergaram quase as mesmas coisas. Mas eles são pessoas diferentes, né? E aí... os textos completos estão aí embaixo pra você e todo mundo que for da sua família ler! ;)
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“A esperteza quando é demais come o dono”
por André Mello
Esse título aí em cima é um ditado que minha mãe tinha e volta e meia ela falava.
Lembrei muito disso quando, na faculdade, li Ilíada e A Odisseia na gloriosa aula de Literatura Épica. Já conhecia as histórias (muito obrigado, Power Metal e aquele filme com o Armand Assante que passava direto no SBT), mas foi nessas aulas que ficou tudo realmente interessante e esse ditado fazia cada vez mais sentido. Porque, no fundo, a história de Odisseu é uma história sobre culpa, destino e como ser a pessoa mais esperta de uma situação pode acabar sendo a pior coisa a longo prazo.
Então, quando surgiu a notícia que Christopher Nolan dirigiria uma adaptação de A Odisseia, anos depois de quase dirigir Troia (aquele com o Brad Pitt), eu me animei tanto quanto fiquei com um receio enorme. Porque o Nolan é, ao meu ver, um excelente diretor com capacidade mais que suficiente de trazer aquele clima épico que uma história como A Odisseia precisa, mas também é conhecido por ter um senso de fantasia e leveza quase negativo, o que prejudica quando estamos falando de uma trama que envolve deuses e situações fantásticas. Troia já cagou tirando toda a parte de mitologia e o Nolan poderia acabar entregando uma “versão realista” da Odisseia que particularmente eu não queria ver.
Eis que não só o ditado que eu ouvia voltou a fazer sentido, como o meu receio era, ainda bem, infundado.
A Odisseia, que tem Matt Damon como protagonista e mais um elenco absurdo, traz boa parte daquilo que eu lembrava da história, sem virar as costas para a mitologia em torno do poema de Homero, ainda que seja claramente um “FILME DE CHRISTOPHER NOLAN”.
A produção é sim épica, mostrando como Odisseu, a mente por trás da criação do cavalo que daria fim à guerra de dez anos contra Troia, passa por tudo e mais um pouco por conta de sua esperteza. Enquanto ele e seus homens tentam voltar pra casa, Odisseu acaba cagando cada vez que tenta ser esperto e se perde no mar, passando vários anos em busca do caminho de volta. Ao mesmo tempo, sua rainha, Penelope, precisa ficar dando perdido em um bando de talarico porque geral acha que o cara não volta para o seu trono em Ítaca porque morreu.
Christopher Nolan não renega a mitologia colocando um ciclope gigante de cara torta, gente virando bicho, uma deusa sábia e tudo aquilo que quem conhece a história espera. E de um jeito que faz sentido, sem querer ser “realista” ou muito pé no chão. Tudo acontece e te envolve de um jeito que você não sente as quase 3 horas de filme, dando a impressão de que ainda existe chance de um filme grandioso, um blockbuster, parecer um FILME. Aquele lance de “Absolute Cinema” se encaixaria aqui não somente por ser um baita épico, mas por parecer um FILME.
Quando praticamente todas as produções do tipo blockbuster parecem uma folia gravada em um estúdio fechado, com milhares de profissionais de efeitos especiais entregando o que podem dentro de uma deadline impossível, A Odisseia parece caro NA TELA. É filme pra se ver no cinema.
Isso não significa que ele é perfeito, já que em alguns cenas, tudo é mais sério do que precisava ser. Dava pro Nolan ter desenvolvido um leve senso de humor. Ou saber filmar cenas de luta, algo que desde os filmes do Batman ele já deixou claro que tem problema em fazer.
No fim das contas, talvez A Odisseia tenha se tornado um dos meus filmes favoritos do Christopher Nolan. Não sei se por gostar da história original e como ele a levou pro cinema, dentre a filmografia do cara, que é de fato muito boa, A Odisseia já tá tranquilamente no meu TOP3.
E agora eu quero um filme adaptando A Ilíada com TODA a parte da mitologia no meio, ahhhh eu quero.
O desajeitado abraço de Christopher Nolan na magia do cinema
por Renan Martins Frade
Foi Georges Méliès quem trouxe a magia ao cinema. Quando o então ilusionista chegou à arte das “imagens em movimento”, criada pelos Irmãos Lumière, ela era quase documental, um registro do banal do cotidiano, ainda que, por natureza, já houvesse um encanto ao finalmente vermos a captura do movimento da vida.
A partir daquilo que era a exatidão da química e da física, Méliès desenvolveu os filmes com truques, recheados de efeitos especiais, artimanhas, macetes de edição e muito mais. O cinema se tornou a arte do sonhar.
Não demorou para que esse sonho transformasse o folclore de povos passados em realidade na telona. Tornou possível se empolgar com a mitologia de gregos, romanos, egípcios, babilônios… Um grande exemplo é o longa-metragem Jasão e os Argonautas, de 1963. Ver os heróis enfrentando esqueletos vivos, décadas antes da chegada do CGI, é até hoje surpreendente. Parece feitiçaria pura.
Christopher Nolan simboliza uma virada. O diretor despontou em uma fase na qual a sétima arte se tornou cética, lá nos anos 2000. Seus filmes geralmente nascem a partir da razão, onde cada acontecimento, artefato ou desenvolvimento precisa ser cuidadosamente explicado em bases racionais.
Só acreditamos que um homem se veste de morcego para combater o crime depois de passar por uma análise praticamente freudiana de suas motivações, e de ver seus equipamentos explicados como se fossem projetos de engenharia. Embarcamos em um mundo de sonhos somente após uma explicação sobre o subconsciente humano. Uma viagem pelo tempo e pelo espaço vem apenas após uma justificativa capaz de agradar Neil deGrasse Tyson em termos científicos.
Por isso, quando Nolan anunciou que o seu próximo projeto após o multipremiado Oppenheimer seria A Odisseia, imaginei que o resultado final seria algo parecido com Tróia, longa de 2004. Aquela produção é de outro diretor, Wolfgang Petersen, mas bebe exatamente da mesma fonte que caracteriza o trabalho de Nolan. O Aquiles de Brad Pitt não é praticamente invulnerável como na mitologia, mas sim um guerreiro formidável que, pelo destino, acabou levando um último golpe no tendão antes de morrer.
Mas Christopher Nolan me surpreendeu. Em A Odisseia, ele abraça não só a magia da mitologia grega, mas também a do cinema. Um abraço meio sem jeito, envergonhado, de quem é tímido e não gosta muito de contato humano… mas um abraço.
Em linhas gerais, o novo filme acompanha a saga clássica de Homero. Odisseu (Matt Damon) é o rei de Ítaca e um dos grandes heróis da Guerra de Tróia, que teve a ideia do famoso cavalo. Contudo, ao quebrar a Lei de Zeus e profanar os templos dos troianos, os vitoriosos acabaram incitando a fúria dos deuses.
A partir disso, brincando com o tempo – ainda que de forma mais comedida do que no passado –, Nolan se divide em duas grandes linhas narrativas. Em uma, vemos como Telêmaco (Tom Holland) e Penélope (Anne Hathaway) são obrigados a lidar com uma Ítaca obscura após duas décadas sem presença do rei, afetada pela sombra de pretendentes usurpadores como Antínoo (Robert Pattinson).
Já Odisseu, perdido, busca lembrar não só quem é, mas quem foi e, por meio de flashbacks, acompanhamos como os deuses se vingaram contra ele e seus homens. Tudo enquanto o herói luta para voltar para a sua amada rainha e filho.
E é aqui onde a magia está. Os deuses deixam de ser mero sentimento, ou motivo para oração. Eles puxam as cordas e colocam os soldados frente a frente com criaturas mitológicas como gigantes, sereias, ninfas, feiticeiras e até o cíclope. Mas não espere tudo isso embalado como, por exemplo, a franquia Percy Jackson. Não há brilhos, faíscas, nem nada disso. A fantasia é crua, dura, seca. Parece real.
Por isso, mesmo tendo passado mais de 24 horas após assistir ao filme, é difícil definir se gostei ou não. Uma coisa posso afirmar: é bom. Nolan já demonstrou mais de uma vez que é um soberbo contador de histórias, nos dois sentidos que o adjetivo pode ter. Isso se repete em A Odisseia.
No set, o diretor tira o melhor de seus atores. Matt Damon certamente tem uma de suas melhores atuações em anos. Anne Hathaway passa a força de sua personagem com o olhar. Robert Pattinson traz todo o nojo que esperamos de um vilão covarde. Tom Holland mistura esperança, altivez e insegurança na medida certa.
Enquanto isso, o roteiro traz uma crítica ao mundo de hoje ainda mais sutil que a de Oppenheimer. É sobre como abandonamos antigos limites morais em nome da barbárie e acabamos nos tornando os vilões da nossa própria história, merecendo um castigo à altura. Mas é uma daquelas reflexões que você tem que realmente prestar atenção na mensagem para entender.
Na fotografia e na direção, a tela IMAX é inundada por cenas em que a beleza não está no colorido, ou em revelar o que é bonito, mas sim na estética cinza e no olhar raivoso dos deuses – que nunca é visto, mas é sentido.
A direção de arte e os efeitos especiais também se superam. Dessa vez, o desafio não estava em recriar o brilho de uma explosão atômica de forma prática, mas sim em entender como seria um ciclope não-idealizado, em um rosto torto.
No final, talvez essa seja a grande metáfora para A Odisseia. Não se trata de uma visão inocente e fantasiosa da mitologia grega, mas sim de uma representação retorcida, bruta e que sentimos afiada como a ponta de uma flecha.
Quem tem essa visão de mundo vai amar. Porém, quem busca a verdadeira magia, vai chegar ao fim das 2h52 de filme com um vazio difícil de explicar. Isso porque, mais de um século depois de Méliès, Nolan não consegue simplesmente deixar o impossível acontecer. Ele precisa domá-lo.
Às vezes, a gente só quer mesmo um pouco de imaginação para poder sonhar.
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Semana passada estreou Moana! O live-action, não a animação, que estreou em 2016. Mas os filmes são iguais… a única diferença é que um é live-action e o outro animação. Aí a gente escreveu sobre isso aqui. :P








