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Live-action de Moana não só é tudo o que você podia esperar de um remake live-action de Moana, como é o próprio Moana original. Só que live-action. :P
Um dos quadros mais conhecidos da humanidade é La Gioconda, a obra-prima de Leonardo da Vinci. Sua imagem está por toda parte: na internet, em reproduções para decoração, canecas, quebra-cabeças, meias e uma infinidade de produtos. Ainda assim, mais de 7 milhões de pessoas passam pelo Museu do Louvre todos os anos para ver de perto a pintura que o mundo conhece como Mona Lisa. O quadro se tornou sinônimo de um sorriso enigmático, chama atenção pela técnica, alimenta teorias sobre sua origem e sobreviveu a guerras para chegar até nós.
O resto é imitação.
Neste fim de semana, Moana estreou nos cinemas brasileiros e, ao assistir ao remake live-action, fiquei pensando justamente na Mona Lisa. Sim, pintura e cinema são diferentes, principalmente porque esta última ainda é uma criança de 130 anos. Ainda assim, estamos falando de arte.
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Lançado em 2016, o Moana original se tornou um dos grandes expoentes da fase contemporânea das animações da Disney. Com uma técnica impecável, une a Jornada do Herói (nesse caso, da Heroína), uma história de amadurecimento e elementos do folclore da Polinésia, tudo embalado por canções de Mark Mancina, Opetaia Foaʻi e Lin-Manuel Miranda, então no auge do sucesso de Hamilton.
O resultado disso é um filme que não só inspira, mas também encontra um lugar especial entre aqueles, principalmente meninas, que estão em busca do seu lugar no mundo e de quem são.
Dez anos depois, a Disney traz uma versão com atores de carne e osso da mesma história. Assim como na animação, o semideus Maui ganha vida com Dwayne “The Rock” Johnson, enquanto Auliʻi Cravalho é substituída por Catherine Laga’aia.
E… não acrescenta nada.
Novas interpretações em live-action de animações do passado não são novidade. É um movimento que começou ainda nos anos 1990, com O Livro da Selva e 101 Dálmatas. Nos últimos anos, porém, a estratégia ganhou força dentro da Disney. Vieram A Bela e a Fera, Malévola, Dumbo, Mulan, A Pequena Sereia, Branca de Neve e diversos outros. Teve também O Rei Leão, mas esse é uma animação ultrarrealista.
A aposta é que a nostalgia transforme os remakes em eventos cinematográficos capazes de justificar uma ida ao cinema em uma época em que praticamente todo o entretenimento cabe na palma da mão. O fator geracional também tem peso: pais e mães aproveitam essas novas versões para compartilhar com os filhos personagens e histórias que marcaram a própria infância.
Contudo, a maior parte dessas produções tenta adicionar algo novo à obra original – com maior ou menor sucesso. Pode ser uma atualização para os tempos atuais, uma nova perspectiva ou um olhar diferente. É parecido com quando algum artista usa a Mona Lisa como referência do imaginário coletivo para criar algo diferente – seja paródia, crítica, homenagem ou desconstrução. Como o projeto Quadrões, da Mauricio de Sousa Produções, que colocou a Mônica como La Gioconda, por exemplo.
Não é isso o que ocorre no novo Moana. Cada cena, cada música, cada fala, cada detalhe: tudo é uma cópia quase idêntica da versão original. Isso se repete em boa parte das escolhas de direção, direção de arte e fotografia.
Em certos momentos, chega a lembrar a versão de 1998 de Psicose, estrelada por Vince Vaughn. Durante as filmagens, o diretor Gus Van Sant chegou a ter um monitor para observar o trabalho de Alfred Hitchcock e copiar detalhe por detalhe, plano por plano, do original. Dessa forma, tudo o que tinha de inovador da primeira versão se vai pelo ralo. Joga-se na zona de conforto e ninguém “erra”, mas tudo vira uma cópia. Deixa de ser arte, vira imitação.
Obviamente, o cinema é uma das manifestações artísticas mais comerciais que existem. Seu valor financeiro está nas inúmeras reproduções da obra, exibidas nas salas de cinema e, hoje, também no streaming. Mas sua importância está, sim, na originalidade: no risco assumido, na inovação, no uso da imaginação e na capacidade de encantar o público.
John Musker e Ron Clements, os diretores do Moana animado, não são Leonardo Da Vinci. Ao mesmo tempo, são, sim, artistas. Thomas Kail, na melhor das boas intenções, não atua como um – não ao menos neste remake. Na prática, é um funcionário que é competente em executar a sua função na linha de produção industrial.
Isso não quer dizer que a nova versão não encante. Afinal, ao repetir o original, ela copia e cola seus melhores momentos. E com um orçamento enorme de US$ 250 milhões, o filme pode transformar o desenho animado em CGI de forma quase impecável.
Mas tudo isso é tão vazio quanto uma caneca esquecida na lojinha de souvenirs, estampada com o sorriso amarelo da Mona Lisa.
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