A gente só acredita porque a gente sabe que é possível. Mas putaquepariu.
Futebol em nenhum lugar do mundo é só futebol, ESPECIALMENTE no Brasil. Mas vir com esse papinho de "e as crianças?" é de foder. Vai piorar bastante antes de melhorar...
“Arrogância do Brasil no futebol contrasta com imagem de país alegre, diz comentarista inglês” era a chamada de uma entrevista publicada pelo site da BBC Brasil. Não lembro quem compartilhou, mas veio um pouco com aquela coisa de quem não acompanha muito futebol, principalmente o internacional, e agora tá soterrado em Copa do Mundo. No click, porém, foi possível perceber que tudo o que foi dito ali era real.
A questão é que a crença de que o Brasil precisa vencer todas as Copas e, se não o fizer, é o maior dos fracassos, não é uma arrogância pura e simples, um PERNOSTICISMO gratuito. Vem de longe, de muito fundo e só quem nasceu e foi criado aqui consegue entender de verdade.
Mas isso foi no domingo de manhã. Os churrascos estavam ainda começando a ser preparados, as cervejas ainda não estavam muito geladas... e o que era pra ser só mais um texto sobre Copa do Mundo e Seleção Brasileira no JUDÃO virou uma conversa paralela entre zoação por resultados de Bolão e resultou numa edição extra (e aberta!) dessa newsletter onde falamos, também, sobre a eliminação do Brasil e o que vimos, ouvimos e esperamos, ou não, do futuro.
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Nesta edição!
Futebol nunca é só no Futebol, mas no Brasil é ainda mais diferente (e complicado), por Thiago Borbolla
Pra putaquepariu com esse papinho de AI MAS E AS CRIANÇAS, por André Mello
Vai melhorar? Quem sabe um dia. Até lá, vai piorar. Por Leonardo Alcalde
Se não é só futebol, não pode ser só arrogância
por Thiago Borbolla
Qualquer torcedor de futebol já depositou toda a sua alegria, tranquilidade, paz e outros sentimentos que costumam ser desejados nos fins de ano numa vitória do seu time. Não precisa nem ser a conquista de um campeonato, basta vencer o clássico, ou algum jogo específico por qualquer razão, pra conseguir ficar leve por algum tempo, pra sentir que tudo de ruim que aconteceu até ali não tem mais importância, que acabou. Extravasa. Põe pra fora. Grita um CHUPA bem alto na janela. Saúde nada mental. A cura da depressão!
No dia seguinte é uma delícia encarar os colegas de trabalho sorrindo, o colégio sem ouvir qualquer tipo de zoação, andar na rua como se andasse nas nuvens, sem que nada pudesse atingir, viesse de onde viesse. Nada nem ninguém é superior a você. Aos seus, um “VAI CORINTHIANS!” ou um sorriso de quem sabe o que o outro está sentindo exata e literalmente. Vencemos. Naquele dia, no jogo; nos momentos seguintes, na vida.
O contrário também é verdadeiro. Quando o resultado não é o esperado, aquele grito vira uma bola de pelo sintético, um emaranhado de arame farpado estacionado no pescoço. Todos os gritos, aliás, já que não podemos fazer muita coisa além de aceitar a zoeira. Aceitar os sorrisos de quem anda nas nuvens e deixar a raiva passar pelo próprio corpo tal qual aquela água que a gente segura com as mãos no chuveiro e deixa cair como se fosse uma bomba. Não adianta chamar pelos feitos do passado. Ganhou trocentos jogos e campeonatos antes? Foda-se. Tem mundial? Foda-se. Hoje, foda-se.
A Seleção Brasileira nos acostumou mal. Quem tá circulando os 40 já teve oportunidade de ver e viver o Brasil vencendo duas Copas do Mundo. Acompanho jornalistas que viram e viveram a de 70, que falam sobre a de 82 com uma admiração e tristeza que nos faz sentir a mesma raiva de Paolo Rossi que eles sentiram naquela época. A gente sabe o que é comemorar o Brasil campeão da Copa. Mais ainda, a gente sabe que isso é algo completamente possível.
E saber dessas duas coisas ao mesmo tempo é perigosíssimo. Sabe o que rolou esse ano com o Wagner Moura, depois do que aconteceu em 2025 com a Fernanda Torres?
Nesse último fim de semana, a BBC publicou uma entrevista com Tim Vickery, jornalista inglês radicado no Brasil desde 1994. Ótimo profissional, ser humano ainda melhor. A chamada fala sobre uma “arrogância” no futebol por parte dos Brasileiros que não aparece em qualquer outro momento do texto, mas com certeza é o que entendem do que ele fala sobre o Brasileiro achar que sempre deve vencer a Copa, sendo que uma Copa do Mundo “é uma viagem” e a gente só se preocupa com o destino. A vitória ou nada. campeão ou fracassado.
Com um olhar mais distante, ele ainda cita a narrativa “contra tudo e contra todos” do nosso futebol no geral, de sermos reféns de um passado glorioso de três conquistas em quatro disputas e, depois, duas outras em três finais seguidas. Enfim. Vale a pena ver alguém que escolheu o Brasil e o futebol Brasileiro falando sobre esse traço importante da nossa cultura, ainda mais sabendo que a entrevista foi feita antes do jogo contra a Noruega. Ele está 888% certo no que diz, mas o mesmo distanciamento que o permite enxergar e apontar essa tal “arrogância”, não deixa ele entender o motivo pelo qual somos assim.
Gustavo Alfaro, técnico do Paraguay, deu umas declarações bem fortes depois da eliminação para a França. Nela, ele fala sobre a diferença entre os seus selecionados e os da Europa, principalmente. Questões financeiras, familiares, do quão grande e importante é o que eles fizeram -- ainda que, sejamos sinceros, o não-jogo contra Mbappé, Olise e cia. tenha sido ridículo e até desrespeitoso com tudo isso o que ele afirma e o que fizeram contra a Holanda.
Tudo isso acontece também por aqui. De Pelé a Ronaldo, só tirando talvez o Kaká e algum outro, todos tem alguma história parecida de dificuldade e perrengue familiar e profissional. A questão é que o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo. A Seleção, mesmo com todas essas questões, conseguiu vencer essas equipes teoricamente superiores. Fez com que cada uma daquelas estrelas se tornasse parte da identidade nacional.
Fez com que a gente fosse melhor em algo mais objetivo do que beleza de país. Pegamos um esporte que eles inventaram e fizemos com que fosse nosso -- Copa do Mundo mesmo só é o que é, pra todo o mundo, por conta de Pelé e a seleção de 70. Enfrentamos, ganhamos, demos show. Paramos o País pra Seleção jogar. Apesar de tudo, ainda são audiências gigantescas na TV, mesmo em amistosos.
É verdade, porém, que desde 2002 o Brasil não consegue vencer uma equipe europeia em mata-mata de Copa do Mundo e, desde de 2006, tem sido eliminado de maneiras vexatórias diferentes. Aquela equipe que o vídeo diz que o “adversário sabia que ia perder” foi eliminada porque tomou um gol enquanto quem deveria defender arrumava o meião; em 2014 foi o 7x1 na semi, o 3x0 na disputa de terceiro lugar; em 2018 e em 2022 foi Bélgica e Croácia. E sim, Noruega tem o Haaland, tem o Odegaard… mas ainda é a Noruega. Ainda é só a Noruega.
Por mais correto e no ponto que esteja sobre sua visão da relação do Brasileiro com o futebol, que ele até diz que contrasta com a imagem de alegria exportada mundo a fora, é isso que Tim Vickery não consegue alcançar. Porque, no fim, o futebol é uma das poucas coisas que, em algum momento, conseguimos superar objetivamente o mais rico, o mais poderoso. O futebol nos dá um pouco de paz, de tranquilidade, de unidade. O futebol nos faz parar de trabalhar. Te faz abraçar desconhecidos, sair buzinando pelas ruas, gritar. Todos os seus, juntos, na esperança de um alívio, de uma distração. Dias em que nada, nem ninguém, consegue ser maior.
É literalmente a mesma ideia do Carnaval. A diferença que é que o Carnaval acontece todo ano e muita pouca gente tem consciência de classe pra enxergar aqueles dias entre Fevereiro e Março com a importância que se deve.
Futebol é um esporte, um jogo. Mas, pro Brasileiro, desde 1950, é muito mais que isso. É triste que os fãs de Neymar tenham sido feitos de trouxa e acreditado que ele fosse maior que tudo isso, mas se tudo der certo, em 2030 isso acaba e quem sabe, como diriam os Ingleses, o futebol volte pra casa ou, pelo menos, comece a percorrer esse caminho que o distanciou tanto de quem o fez ser quem é.
E as crianças?
por André Mello
Brasil foi eliminado da Copa. Você que tá lendo isso obviamente acompanhou a partida patética da Seleção, do ex-jogador que ainda estava em atividade dando chilique, querendo arrumar confusão com goleiro enquanto era eliminado, aquela coisa toda.
Só que logo depois da eliminação, dos vários memes de “AINDA BEM QUE PERDEU, ESSE MERDA!” e afins, ligo o YouTube pra ver o funeral na CazéTV e uma pergunta feita pela Fernanda Gentil ao Casemiro (o jogador velho, não o dono do canal) me deixou absurdamente puto.
Em uma tentativa fraca pra evocar emoções, a jornalista meteu um papinho de “e as crianças, o que você fala pra elas não desistirem?”. Casemiro chorou. Não vou falar como uma pergunta RUIM abalou o psicológico de um jogador que deveria ser mais forte. Eu fiquei puto com essa coisa de “MAS E AS CRIANÇAS?”.
A Seleção Brasileira entra no maior jejum sem título da Copa do Mundo desde que ganhou a primeira. Foda, 2006 a gente até achava que ia rolar pela MONSTRUOSIDADE dos jogadores convocados, mas o sonho ficou lá em 2002.
Tem gente que já tá bebendo e metendo boneco por aí que realmente nunca viu a Seleção ser campeã do mundo, que quando veem uma entrevista com algum jogador gringo sobre o peso da camisa brasileira, é tudo uma grande história do passado.
E algo que me irrita DEMAIS nesse papo de “mas e as crianças” é que é a segunda vez que a gente fica com algumas décadas sem nada.
Eu nasci em 1986. A Copa de 94 foi a primeira que eu assisti e lembro bem. Nas eliminatórias, eu já tinha uma noção do que era futebol. Lembro, ainda que vagamente, das reclamações com a seleção pré-Copa, lembro do Galvão pisando no pé do Pelé na comemoração, do Maradona sendo levado de bracinho pela enfermeira que pegaria o cara no dopping.
Apesar de ter um jejum absurdo de títulos desde 1970, não tinha essa choradeira de “mas e as crianças?”. Talvez elas precisem dessa bordoada da vida logo cedo. Não vão ver a seleção campeã em 2026, e sei lá se em 2030. Não é por isso que eles vão deixar de ver futebol.
Quando Romário, Bebeto e cia conseguiram em 94, não foram jogar pensando “todo mundo tem medo da gente”. Em 1998, até tinha a coisa de “Ih, são os campeões”, mas a França tombou no final. Em 2002, a grande aposta era um jogador que quase acabou a carreira porque tava com o joelho fodido (interessante a coincidência) e precisou fazer um corte de cabelo ridículo pra que ninguém prestasse atenção numa outra lesão. Mas eles jogaram POR ELES, assim como em 1994. Pra provar que aquela camisa ainda merecia ser temida. Desde 2006, mesmo com vários jogadores da campanha de 2002 por lá, já tavam no embalo de “olha as estrelinhas na minha camisa, vou arrumar o meião enquanto isso”.
No final do jogo contra o Japão, confronto que teve o jogador Kento Shiogai afirmando que a Seleção Brasileira não era mais a mesma, Matheus Cunha foi querer zoar e mostrar as cinco estrelas e “exigir respeito”. Matheus Cunha fez porra nenhuma no jogo do bicho pra chegar com essa marra. E esse é o maior problema dessa geração e dessa coisa de “mas e as crianças?”.
Eu quero DEMAIS que essa criançada nunca veja a vitória de uma geração RIDÍCULA de jogadores, que se preocupam mais com redes sociais do que jogar bola. Que veste a camisa da seleção por conta de esquema de empresário pra valorizar o passe e ir jogar num time de segunda prateleira de algum campeonato europeu. Que fazem publi e são garotos-propaganda de bet.
Eu quero jogador que entenda que o Brasil, o país, o povo, vive e respira futebol, mas a Seleção já se distanciou tanto dessa galera que hoje é só um personagem apagado no meio de outros países. Que em vez de ficar apontando pra cinco estrelas que ele nunca fez nada pra merecer, jogue com gana de vencer e faturar a sua própria estrela.
Quero que quando o adversário veja a camisa amarela, não pense em Pelé, em Tostão, em Garrincha, em Zico, em Sócrates, em Romário ou Ronaldo. Pense naquele jogador que tá na frente dele e que todo mundo que vem do Brasil é digno de pensar “É, fodeu”.
Enquanto essa criançada tiver como ídolo um maluco que há anos é mais conhecido pelo Instagram e por fazer merda, eu quero mais é que se lasquem.
Vai piorar antes de melhorar
por Leonardo Alcalde
A relação do Brasileiro com Copa do Mundo é aquela coisa meio tóxica. Você acha que já é um negócio superado, mas na hora H você acaba relevando por uma perigosa nostalgia e se deixa levar, toma no remiscleives de um jeito todo novo e pensa “é isso, agora não quero mais saber dessa porra”. Aí vem o novo ciclo™ e, pasmem, começa tudo de novo. E nessa já se vão seis Copas e em toda eliminação a gente ouve SEMPRE a mesma ladainha:
— Não somos mais o país do futebol!
— É hora de renovação!
— Eu não via uma eliminação tão vexaminosa desde 1900 e guaraná com rolha!
— Vamos implodir o prédio da CBF e construir uma Casa do Pão de Queijo no lugar!
— A África é logo ali!
— Esse técnico não manja nada, vamos chamar um estrangeiro!
— Pera, esse era estrangeiro, né?
Então me desculpem se eu fico um tanto cético em achar que em 4 anos alguma coisa relevante vai mudar de fato. Vai ser uma variante mais fedida da mesma bosta e depois de sermos escorraçados na 1/75 avos de final pela estreante seleção de Tuvalu veremos os comentaristas esportivos PISTOLAÇOS dizendo “pô, a eliminação contra a Noruega até que não foi tão vergonhosa assim”. Porque foi basicamente o que eu ouvi em pelo menos dois canais essa semana contemporizando as derrotas para a Bélgica e Croácia, e eu me lembro muito bem que o clima nessas ocasiões também era de terra arrasada, porque eu estava lá. Assim como eu também estava de 94 a 2002 e até por isso entendo a dificuldade de abandonar essa mentalidade de “é anormal a gente apanhar assim”, porque já é normal tem algum tempo.
E não vai acabar tão cedo.
No apito final contra a Noruega um otimismo meio desmiolado já ameaçou tomar conta de minh’alma quando eu e minha bolha todinha decretávamos o fim da era Neymar, mas sinceramente até disso já duvido. Eu não ficaria nem um pouco surpreso se em 2030 o ainda menino Ney, com 38 anos recém completados e com a segunda artroplastia de quadril terminando de cicatrizar tivesse LARGO apoio pra fazer uma (outra) última dança. Já consigo VISUALIZAR os posts “Messi jogou 2026 com 39!”, “Cronaldo tava com 41!”, “Luka Podric tinha 40!” - até porque já aposentaram tanto Messi quanto CR7 há pelo menos uma Copa. Tudo bem que eles ainda conseguiam andar em linha reta, mas enfim.
Não acredito tanto assim porque acho que o problema vai um tanto mais além. Neymar é a encarnação de toda a zeitgeist tupiniquim que intitulamos neymarzismo cultural. É a cultura da bet, do adulto infantilizado, do umbiguismo, da igreja de parede preta, do pisar na cabeça dos outros e sair fazendo LERO-LERO-LÉÉ, de chamar quem aponta tuas merdas de invejoso, da resenha, de entrar no vestiário com uma boombox enchendo o saco de todo mundo, de fazer um gol irrelevante num goleiro que tá classificado & rindo de você e sair batendo no peitinho.
Isso não termina com uma eventual aposentadoria do jogador real porque o hipotético vai viver eternamente, basta ver a quantidade de gente lamentando que “se ele tivesse entrado antes...”. Pra fazer parte desse movimento (sempre muito verde e amarelo) você não precisa nem desfrutar de nenhuma das regalias que permitem essa postura, basta você ser um PELA-SACO de quem as tem. E o que tem de pela-saco de ídolo medíocre por aí não é brincadeira não.
Falar mal da CBF e de toda a política que estrutura esse circo também já não é novidade há muito tempo, mas ao contrário de outras épocas a gente já não tem talentos individuais suficientes para empurrar os problemas com a barriga. E ironicamente muitos desses talentos hoje estão lá, engravatadinhos, sentados nas tribunas de honra lado a lado com toda essa patotinha do status quo (ou tirando uma folguinha de seu cargo público), o que certamente não soa nem um pouco transformador ou revolucionário.
O Castelo de Areia que o inebriado Fernando Vanucci atentou que precisava vir abaixo continua aí, capengando mas em pé, vinte anos depois. Vai-se a truculência da era Dunga, o bobo-alegrismo da geração 7x1, a MODORRÊNCIA quase eficiente da era Tite, vai-se o Reizinho mimado e seus pagalanxes e as supostas renovações não chegam nem na página 2.
Mas em 2030 estaremos aí de novo, porque antes de qualquer coisa somos fundamentalmente torcedores apaixonados e, portanto, uns tontos iludidos.
Tomar no cu.
Só pra constar!
⚽ Copa do Mundo é legal pra caralho e, ano que vem, tem a das Minas aqui no Brasil. A gente já escreveu aqui sobre como torcida ganha jogo e, agora, sobre estrelinhas na camisa e essa “arrogância” que, infelizmente, o pessoal não tem em relação à Seleção Feminina -- só quando os homens perdem, ou na hora de riscar o nome do Neymar da camisa e escrever o da Marta. Aproveita então que cê não tem muita coisa pra fazer e se cadastra no site da FIFA pra “registrar interesse” em ingressos e poder fazer barulho no estádio e, se tudo der certo, mostrar que as Seleção Feminina também pode vencer os ricos, os poderosos. BORA. :)










