Seleção Brasileira não tem Torcida
Já é difícil se identificar com a Seleção de maneira geral atualmente, mas se nem dentro do estádio isso acontecer, pode esquecer que o hexa não vem...
Em 1992 o Brasil ganhou sua primeira medalha de Ouro Olímpica no vôlei masculino AND sua primeira Liga Mundial. Além de uma torcida barulhenta, duas coisas marcaram aquela conquista: o “em cima em baixo puxa e vai aiaiai” e uma corneta imparável de Dartagnan Jatobá.
O cara era o maestro: puxava o som, o ginásio inteiro acompanhava e, em algum momento, aqueles jogadores passaram a jogar, como dizem por aí, por música. Literalmente. Deu no que deu.
Depois desses dois jogos do Brasil na Copa de 2026, ficou claro: tá faltando algo assim nos jogos da Seleção...
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Além disso, ele também escreveu sobre o filme específicamente, depois de assistir e aparentemente bateu. 30 anos depois do original, a Pixar conseguiu encontrar algo sobre o que falar e… bateu. Leia o texto completo aqui!
“Agita, cuzão! É jogo da Seleção!”
Michel Nkuka Mboladinga é congolês e ficou famoso no mundo do futebol durante a última edição da Copa Africana de Nações por assistir aos jogos da República Democrática do Congo completamente imóvel como uma estátua -- a estátua de Patrice Mulumba, símbolo da independência do país nos anos 60. Durante os 90 minutos do jogo, isso é tudo o que esse Sapeur1 faz: sobe no seu pedestalzinho e, independente do que estiver acontecendo dentro do campo, personifica o símbolo de todo um povo nas arquibancadas, sem baixar a mão direita, sem dizer uma palavra ou mudar a expressão no seu rosto.
É algo tão poderoso que, pra essa Copa do Mundo, os jogadores da seleção da RD Congo pediram que ele fosse incluído na delegação oficial, com medo de ele não conseguir entrar nos EUA por conta das restrições sanitárias relacionadas ao Ebola ou algo pior. Eles não o ouvem e nem o vêem, mas saber que ele está lá e isso os lembra do porque estão ali. Pra quem estão jogando.
A seleção da República Democrática do Congo (que a gente sempre reforça que é democrática porque existe uma outra que eu não sei se é democrática, mas não tem isso no nome) não vão muito longe na Copa do México 26 por uma série de razões, mas entrega não será uma delas, muito menos a conexão que tem com o povo, nas arquibancadas, nas suas casas ou no miolo de uma fanfest em Lisboa. Para o desenvolvimento desse texto, vou chamar isso de carisma.
Carisma este que, quando falamos sobre a seleção Brasileira, não existe -- nem da instituição, nem da equipe e ainda menos dos jogadores. Sequer temos um doido que imite galinhas e essa seja sua característica mais marcante. Talvez o jovem Endrick chegue perto de algo assim, mas aparentemente é justamente o fato de ser um pouco indomável que o deixa colado no banco de reservas. Se quiser, até dá pra aceitar o Neymar, goste ou não, como alguém carismático. Mas... né?
Até o Canarinho Pistola perdeu sua a graça, bem ele que só virou o que virou por conta do carisma.
Torcida de arquibancada a Seleção também não tem. Primeiro porque ir ao estádio implica no ato de torcer, não de ser um mero espectador. Se aquelas onze (ou menos) pessoas que estiverem em campo usando roupas parecidas com as suas derem algum tipo de espetáculo, parabéns! Mas o que importa é torcer. Gritar, cantar, empurrar, independente do resultado, independente de sol, de chuva, de qualquer coisa.
Ir a um estádio de futebol é uma questão de pertencimento, de estar entre os seus. Assistir a um jogo, esperando conforto e show, é algo completamente diferente e deve ser feito dentro de casa ou em qualquer outro lugar fora dali.
O nome disso é cultura de estádio. Ela precisa ser fomentada semana após semana, conectando times a pessoas, pessoas a pessoas, pessoas a jogadores, até que tudo seja uma coisa só, até que se sinta parte de tudo aquilo. E se em jogos de seleção isso é impossível, que seja usado o que se tem: o poropopó dos Corinthianos, os “Cazá! Cazá!” do Sport e do Vasco, daquela versão de Brasília Amarela do Inter e do Flamengo; músicas aleatórias, da mesma maneira que os Mexicanos cantam Cielito Lindo, os ingleses se empolgaram com Wonderwall e boa parte do mundo canta junto com Seven Nation Army... pô, a torcida do Fluminense se une pra cantar em uníssono uma em homenagem ao Papa João Paulo II, que não chega nem perto de falar qualquer coisa de futebol, mas os conecta de um jeito absolutamente único. E sei lá, não é como se faltasse música no Brasil. Sambas de Enredo... imagina um EVIDÊNCIAS cantado por dezenas de milhares de pessoas?
No jogo da NFL aconteceu. Por que não no jogo da seleção na Copa?
Nesse ponto, somos, além de vítimas da FIFA e seus padrões que colocam os preços na Lua, todos reféns daquela pseudo-torcida organizada que resolve se focar apenas em conquistas, ignorando toda a história recheada da amarelinha, e o máximo que consegue é emplacar uma música no comercial do iFood. Uma galera que se preocupa mais com onde as seleções Brasileiras vão levá-las ao invés de onde podem levar essas seleções.
A situação tá tão carismaticamente complicada que ao invés de uns “Vai Brasil dá um show / mete a bola na rede / e mata minha sede de gol / Mais um! Mais um!” por uma versão ainda mais dramática de Sangrando, do Gonzaguinha; um dos poucos jingles mais originais virou ASMR, teatro, instrumental clássico e Kpop (via IA). Não que se deva esperar muita coisa de publicidade, mas como dizem por aí... a gente costumava ser um País. Hoje em dia a gente tem objetivos baseados KPIs, ERs... e hexa. Só se fala no hexa. Dependendo do lugar de estádio, se fala de penta. Mas são números. Hoje temos um que nos difere do resto, mas daqui a pouco nem isso pode existir mais. Daqui um mês.
Enquanto Corinthiano, sei que torcida ganha jogo. Muitas vezes o time não é o melhor, posição por posição, elenco por elenco, mas ainda assim vence jogo -- o que aconteceu na campanha do Brasileirão de 2024, na final do Paulistão de 2025 e, depois, na Copa do Brasil, eu jamais vou me esquecer onde estava, o que fazia, o que falava. E pra mim a conquista do hexa passa por aí.
Me dói demais dizer e, pior ainda, pensar, mas... talvez o estádio devesse voltar a dizer que é “Brasileiro com muito orgulho, com muito amor”, pra ver se alguma coisa começa a se conectar.
Sapeur: homem congolês que se veste com ternos de alfaiataria, estão sempre na famosa estica, mas sempre em cores vivíssimas, batendo de frente com a falta de saturação dos colonizadores. As mulheres são as sapeuse.





