Machado de Assis chega ao mundo dos games e funciona bem demais
Jogamos A Investigação Póstuma, jogo indie Brasileiro baseado em Memórias Póstumas de Brás Cuba e, ó: vale a pena. Também assistimos a Nuremberg, filme que não sobre o que parece ser (e isso assusta)
Você sabia que se o JUDÃO está aqui nesse exato momento em que você nos lê, é por conta de joguinhos independentes? É o famoso efeito borboleta: foi assistindo a uma apresentação do Summer Game Fest que o Borbs percebeu que tem gente produzindo coisa, gente consumindo coisa e, bem... por que não voltar a escrever groselhas pra internet, como o Oda já vinha falando há algum tempo?
Agora olha nós aqui publicando resenha de um jogo indie Brasileiro, A Investigação Póstuma, baseado em Memórias Póstumas de Brás Cubas e todo o Machadismo, empolgadaços por poder participar dessa icônica história 800% Brasileira. Joguinho é legal demais!
Por falar em histórias que se passam (ou pelo menos se iniciaram nos anos 30), trouxemos também nossas impressões de Nuremberg, um filme que só se trata sobre o Tribunal que julgou os crimes da 2a Guerra Mundial no nome -- e isso não é um problema... ou é, quando você perceber sobre o que se trata de fato.
Tá tudo aí embaixo! Aproveite.
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A Investigação Póstuma leva Machado de Assis pros games e funciona bem demais
por André Mello
Vou ser sincero ao falar que durante MUITO tempo não me empolguei com obras de Machado de Assis. Na minha cabeça, aquilo era “livro de vestibular” e só isso. Burrice, eu sei, mas isso se estendeu por vários anos da minha vida, até o dia que completamente do nada, encontrei uma cópia de Memórias Póstumas de Brás Cubas em algum lugar e resolvi ler por lazer mesmo.
Grande livro, eu ri e tive a certeza de que tava garoteando mesmo. E aí, do mais belo nada, me chega a informação da existência de A Investigação Póstuma, novo jogo da desenvolvedora independente brasileira MotherGaia Studios e da distribuidora CriticalLeap, disponível no Steam.
Um point and click estiloso que pega não somente Brás Cubas, mas outros elementos do Machadismo, e entrega um dos jogos mais charmosos e interessantes que joguei nos últimos meses. Na moral.
Um mistério carioca noir
A Investigação Póstuma coloca o jogador no controle de um detetive no Rio de Janeiro da década de 30. Sem saber direito o que está acontecendo, ele recebe uma carta de Brás Cubas, um bon vivant da alta sociedade carioca, o contratando para investigar sua morte.
Sem entender direito, o detetive sai do escritório e se depara com uma cena do crime onde Cubas foi encontrado morto. O jogo poderia apenas seguir com uma investigação comum, com você entrevistando suspeitos e recolhendo pistas, mas algo inesperado acontece.
De noite, o detetive adormece e é enviado para o Limbo, onde encontra o seu cliente, Brás Cubas. De um jeito debochado, ele ajuda a analisar as pistas encontradas e envia o jogador de volta para o mesmo dia.
Você vive um loop temporal em que começa a analisar diferentes momentos e personagens, já tendo informações importantes, para tentar montar o quebra-cabeças da morte de Brás Cubas. Como ele morreu? Quem o matou? Capitu traiu Bentinho?
Uma mistura gostosinha de se ver
Apesar de à primeira vista A Investigação Póstuma parecer “o jogo do Brás Cubas”, na verdade ele é “o jogo do Machado de Assis”, já que a história consegue misturar vários elementos e personagens das histórias do autor em um universo em que todos se encontram no Rio de Janeiro em 1937 e estão interligados ao mesmo mistério.
Não é necessário você conhecer todas as obras do autor, mas a narrativa pode parecer mais interessante ao encontrar um personagem ou elemento vindo de um dos livros. É o básico “Não precisa, mas se souber fica mais legal”.
Claro que nem tudo é alegria, já que por mais que o texto do jogo seja bom (e tem texto pra caralho), a trama, aliada a mecânica, acaba tornando a experiência um pouco cansativa na reta final. São vários personagens e entrevistas com eles, e apesar de tudo ser bem escrito, chega um momento em que parece ter faltado uma leve refinada pra não perder o ritmo.
Mesmo assim, A Investigação Póstuma tem todo um charme e estilo que me agradaram bastante. A ideia de usar literatura brasileira como base pra um jogo é algo que me pareceu muito interessante, principalmente pela forma como foi trabalhado no game.
Em momento algum o jogo parece “pesado” e mostra como as histórias de Machado de Assis podem ser apresentadas para um novo público. Duvido alguém que conseguiu ficar até hoje sem ler nada dele terminar o jogo e não pensar em pegar um livro. Só por isso, A Investigação Póstuma já terá valido muito a pena!
Nuremberg não é sobre Nuremberg
por Renan Martins Frade
Nuremberg é, na prática, dois filmes em um. A primeira camada é uma história baseada em fatos, sobre quando o alto comando da Alemanha Nazista foi julgado por seus crimes na Segunda Guerra Mundial, com o juiz da Suprema Corte dos EUA, Robert Jackson (Michael Shannon), e o psicólogo Douglas Kelley (Rami Malek) como guias dessa história.
Kelley, em especial, é o nosso ponto de interesse. Sua ambição é entender como o mal se forma e transformar isso em um livro. O problema é que, ao se aproximar de Hermann Göring, vivido por um Russell Crowe cheio de nuances, a linha entre observação e fascínio começa a se borrar.
Como reconstrução histórica, o filme tropeça. O diretor e roteirista James Vanderbilt opta por caminhos fáceis, simplificando conflitos e apostando em soluções e diálogos que soam mais Hollywood do que Nürnberg.
A guerra é, na prática, abordada uma única vez: quando são exibidas as duras e chocantes imagens reais dos campos de concentração e extermínio nazistas. Mas é aqui que entra a outra camada: em seu ato final, Nuremberg se revela. Quando vemos, o longa não está mais falando da Alemanha nazista e está falando do mundo de hoje.
“Há pessoas que querem estar no poder”, diz o personagem de Rami Malek, em certo momento. “Tenho bastante certeza de que há gente nos Estados Unidos que pisaria nos cadáveres de metade da população se soubesse que, com isso, conseguiria controlar a outra metade.”
Nuremberg está em cartaz nos cinemas.
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Qual a pior coisa que você já fez na sua vida? É a pior coisa que a pessoa que você ama fez? Qual é o limite do amor? Até onde você leva esse relacionamento, quando você bota um fim em tudo isso? Essas são algumas perguntas que O Drama, um filme sobre não conhecer totalmente quem você ama, levanta. Cê já viu o filme? Vem aqui ler a nossa resenha completa!
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