Meryl Streep da Geração Z
Para muito além de uma série ótima, Margo's Got Money Troubles mostra um trabalho de Elle Fanning, na frente e atrás das câmeras, que a coloca em um novo patamar em Hollywood
Você pode tentar, mas você não vai encontrar em nenhum lugar desse texto algo dizendo que a afirmação contida no título acima é um exagero, uma força de expressão, um modo de dizer. O motivo é bastante simples: não é. O que você leu é exatamente o que foi escrito: Elle Fanning é a Meryl Streep da geração Z. Uma atriz que vai do 8 ao 80 sem esforço, sem afetar, com uma simples mudança de expressão -- algo que se vê muito nos trabalhos de Meryl Streep, que mesmo quando precisa ser mais extra, ela fica dentro de um limite onde pode e consegue fazer tudo o que precisa ser feito.
Elle Fanning segue o mesmo caminho. Sua atuação em Valor Sentimental era curta, mas potente. Era possível enxergar claramente aquela atriz hollywoodiana querendo fazer um filme independente norueguês pra ampliar a carreira, ao mesmo tempo que era apenas uma garota tentando fazer algo que tivesse um pouco mais de propósito na sua vida -- e aqui eu tou falando da personagem, não dá pessoa física... ainda que me pareça plausível. Em Margo’s Got Money Troubles (Margô está em Apuros, em português, homônimo do livro que deu origem à série) é a mesma coisa, mas agora ela é a protagonista de uma série de 8 episódios com 40mins cada em média, na AppleTV, não no Mubi. Ao mesmo tempo que acompanhamos uma mãe fazendo de tudo pra sustentar um filho, vemos uma garota com pais problemáticos e muito amorosos (cada um a sua maneira) que caiu no Papinho de um professor e agora precisa lidar com todo esse turbilhão de coisas que acontecem ao mesmo tempo, inclusive o mundo se voltando contra ela.
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O principal, porém, é que ela sustenta. Ela sustenta a escritora-wannabe, ela sustenta a jovem apaixonada, ela sustenta a mãe solteira, a filha, a sex worker, a garota, a mulher. Como um alien, de pijama, pelada, bombeando leite dos peitos, toda certinha num tribunal, exausta, feliz. Elle Fanning sustenta.
A série por si só é ótima. Conta a história de Margo, uma jovem universitária que sempre gostou de escrever e, depois de ouvir de um professor que poderia estar em Harvard não numa faculdade whatever de uma cidade pequena na Califórnia, acaba se apaixonando e engravida. O cara, porém, é casado, tem filhos e não quer vê-la nem pintada de verde, o que é uma ironia enorme, já que, sem dinheiro e nenhum apoio do genitor, ela abre um OnlyFans e cria a persona da Hungry Ghost, uma alienígena.
Existe um provérbio Africano que diz que é necessária uma aldeia para criar uma criança. “It takes a village”, você já deve ter lido ou ouvido. É pra onde a história vai, com uma roommate cosplayer fã de pro-wrestling (Thaddea Graham), um pai ex-lutador com problemas com drogas (Nick Offerman) e uma mãe (Michelle Pfeiffer) que nunca quis a maternidade e talvez nunca tenha conseguido ser uma mãe do jeito que se espera que uma seja, mas que faz de tudo e um pouco mais pra proteger sua cria.
Em algum momento da série, Jinx, o pai, afirma que ela não é aquilo. Margo questiona “aquilo o que?”, já que é filha de um cara que lutava lutinhas de mentira e uma ex-garçonete do Hooters. Eis Margo. Eis a série.
Fiquei muito feliz que todos os episódios são escritos e dirigidos por mulheres (ainda que a séria tenha sido “criada” por um cara, David E. Kelley, que pela primeira vez em 30 anos de casamento trabalha com Michelle Pfeiffer, sua esposa), e é tudo feito de um jeito que beira a perfeição, tanto no texto quanto na direção. A construção dos personagens, da história, a ideia de reforçar que erotismo é arte antes de qualquer coisa (e, por que não?, o papel da arte), assim como cosplays e até o pro-wrestling. É tudo tão acertado que uma segunda temporada, já confirmada, se torna absolutamente inoportuna. Os oito episódios constroem algo sólido o suficiente para que uma continuação seja desnecessária, correndo o risco de cair pra lados que possam levar a história pra lugares que nem a série e nem aqueles personagens merecem.
A gente precisa se acostumar com uma história que tenha começo, meio e fim, pra não criar nenhuma expectativa que seja impossível de ser atendida -- vale pra séries, mas vale pra filmes e qualquer outra história que a gente assista, ouça, leia. Da mesma maneira, a gente precisa se acostumar que algumas coisa deixam de ser pra gente e só nos resta deixar ir...
Quem não terá fim, porém, é Elle Fanning. Como disse o pai da Nebula e da Gamora, ela é inevitável. Em Hollywood não se faz nada sozinho, mas cuidando da carreira direitinho, como ela parece estar fazendo (a série inclusive é produzida por ela e por sua sua irmã, Dakota, através de uma produtora que elas fundaram), nossa. É conversa de empilhar prêmios, todos os possíveis e imagináveis, e ser indicada a tudo, por qualquer coisa.
Não se trata de potencial, ela já é real. Ela já está aí. Elle Fanning é. Invadiu nossos celulares, nossas TVs, nossos cinemas e nos prendeu. A gente não faz ideia, mas acabamos de entrar no mundo que ela criou… e é só o começo.
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Cês já assistiram ao documentário do Raimundos? Andar na Pedra, disponível no Globoplay, funciona como uma sessão de terapia pros quatro integrantes da banda, vivos ou não, e pra quem cresceu nos anos 90 ouvindo embasbacado com aquilo tudo. O Borbs escreveu sobre tudo isso, clique aqui pra ler!
Ele também escreveu sobre aquele especial do Justiceiro, Punisher: One Last Kill, que podia ter sido um “Punisher will return” no final da série do Demolidor. Tá tudo aqui. :P






