Raimundos + Justiceiro
Enfim assistimos ao documentário sobre a história do Raimundos e NOSSA. Também assistimos ao especial do Justiceiro no Disney+ e... nossa...
Por mais que Raimundos tenha feito parte da infância e adolescência de muita gente, não dava pra imaginar o que o “documentário do Raimundos” faria com quem assiste. Não só pela qualidade enquanto documentário, mas pelo que carrega consigo. É, na real, uma enorme e belíssima sessão de terapia.
Também não dava pra imaginar que esse especial do Justiceiro, One Last Kill, seria tão cheio de nada. Nada pra dizer, nada pra mostrar, nada pra... nada. É tiro, porrada e sangue do começo ao fim, ao invés de uma bem mais útil cartela no fim dos créditos de algum filme ou série da Marvel.
Mas é o que temos, né?
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Nesta edição!
Andar na Pedra: A história do Raimundos
Justiceiro: Uma Última Morte
A gente não entende que precisa dessa série documental do Raimundos até começar a assistir
por Thiago Borbolla
Em algum momento eu tive um melhor amigo no colégio que me apresentou, primeiro, o Black Album do Metallica e, depois, Raimundos. Ele comprou o CD recém-lançado e gravou uma fita pra mim.
Tinha 10 anos, tava na quarta série. Gostava de ROCK PAULÊRA por influência do meu primo, Digão, que tinha um monte de bandas, tocava um monte de instrumentos e me botou pra ouvir Sweet Child o’Mine quando eu tinha uns 5 ou 6 anos. Eu também gostava de música sacanageira, influência do meu pai, que sempre ouvia entre sambas e pagodes, Tô Tristão, do Casseta & Planeta, Agasalha o meu Croquete, de Zé Luiz Ronco, apresentador d’A Hora do Ronco, na Band FM. Foi ele que me deu o CD dos Mamonas Assassinas, aliás.
A fita e o CD que ganhei dos meus pais, um tempo depois, nunca saíam nem do microsystem da sala, nem do meu AIWA. Eu me sentia muito em casa com aquele som e aquelas letras que eu amava cantar e repetir e se bobear faço tudo de cor até hoje. Nem aquele e nem nenhum dos outros quatro álbuns que vieram nos anos seguintes. Ok, talvez Lapadas do Povo eu tenha ouvido bem menos, mas Lavô tá Novo, Só no Forevis e o Ao Vivo, nossa.
Raimundos é uma das principais bandas da minha vida, e eu nunca tive a chance de assistir ao vivo. Primeiro porque no auge do sucesso eu era uma criança, um recém-adolescente. Segundo porque... sei lá, eu não cresci com uma cultura de ir a shows. Talvez fosse a configuração da minha infância e adolescência que não permitia que eu pudesse e quisesse, com 15 ou 16 anos, ir a um show dos caras -- não tinha quem me levasse, não tinha com quem ir e era isso.
Terceiro porque a banda acabou em 2001. Eu tinha 17 anos e lembro bizarramente bem de ouvir na rádio, Mix provavelmente, sobre a saída do Rodolfo e, na sequência, sobre os motivos da saída. Eu tenho um pouco de Fernanda Torres em mim e não aceitei nada daquilo e foi naquele exato momento que Raimundos acabou pra mim e pra tantas outras pessoas (talvez só não tenha acabado pra um único cara, mas até aí…). Fui ouvindo cada vez menos, cada vez mais sem graça, até que se tornou algo que eventualmente eu escutava porque Mulher de Fases, né?
Aí eu fui assistir a Andar na Pedra, série documental que carrega um desnecessário-mas-devem-ter-obrigado subtítulo de “A história do Raimundos”, no Globoplay. Apareceu um dia que abri o app pra assistir ao BBB ou MG1 e, pô, era a junção de dois mundos, o que eu construí, de filmes, séries e cultura pop no geral, e o que montaram pra mim, bem no início dos anos 90, de música. Demorei, mas dei o play.
Bicho... que negócio foda. Que produção absolutamente incrível, impecável. Potente. Porrada de verdade, de todos em todos. Uma verdadeira aula de como se fazer algo desse tipo, de como se contar uma história assim. Desde o primeiro segundo, da primeira vez que se ouve cada um dos integrantes até a última, quem, como eu, foi fã da banda ou gosta de história e cultura pop, começa e não consegue e nem faz questão de parar. São episódios longos, de 1h em média, mas escritos e montados bem o suficiente pra existir uma chance de você pensar que já tá em outro capítulo de tão bem que tudo funciona e se encaixa, e de tanta história (acima de tudo sobre pessoas) pra contar.
Daniel Ferro, o diretor, fechou todas as pontas, não sobrou nada. O que um diz é complementado, corroborado ou rebatido por outro, mas nada do que é dito fica pelo não dito. Isso ajuda muito na hora de você não conseguir tomar um partido, achar que estão todos certos e todos errados. Eles acertaram, fizeram cagadas enormes e a gente se conecta com tudo isso em algum momento. Ou alguns.
Ok, fica um pouco complicado sequer conseguir olhar pro Digão (não o meu primo) e não ter um certo asco que ele mesmo trouxe pra si -- o que, no doc, ele trata como um simples equívoco. Mas, mesmo não conseguindo entender como alguém consegue se converter a qualquer religião depois de adulto, a gente consegue compreender bem o que fez o Rodolfo querer sair da banda sem nem olhar pra trás. Jesus e a tal da cura de um câncer nunca diagnosticado são uma simples coincidência, uma desculpa que ele arranjou pra bancar a decisão... e eu respeito demais. A decisão, pelo menos.
Até lembrei do tempo que demorei pra encerrar as atividades do JUDAO.com.br ou outras coisas que não faziam mais sentido na minha vida. Se eu acreditasse em alguma coisa além do que tá aqui e o que a gente faz, ou tivesse como terceirizar, eu provavelmente teria terminado muito antes. Sendo eu o único responsável por mim, bom... mas de novo: respeito demais o que o Rodolfo fez. E, de certa maneira, até mesmo o perdoo.
Não que eu tenha de perdoar qualquer coisa, ou que ele precise de qualquer perdão. Mas essa é a sensação que Andar na Pedra traz. Agora a gente tá de boa, eu aqui e ele lá. Ele se diz aliviado, que agora consegue olhar pra trás e falar de tudo numa boa. Eu também. Pura terapia.
Fred era (e acho que ainda é) a voz da razão daquele quarteto, mesmo a tendo perdido em diversas situações. Dos três que estão vivos, definitivamente é quem eu gostaria mais de ouvir e conhecer -- e assistir a esse doc me lembrou de uma oportunidade que eu tive de falar com ele, de tirar uma foto, num estúdio aqui do lado de casa. Mas adivinha o que eu fiz?
E, embora seja sim um exagero, o que Rodolfo diz no fim da série é uma verdade inquestionável: Raimundos era o Canisso. O mais fodido de todos, o que fazia merdas e tinha consequências reais. O que foi trabalhar de motorista quando as coisas pegaram. O que talvez representasse, fisicamente inclusive, o que aquela banda fazia e sentia dentro e fora dos palcos. O que, pra sempre, não permitirá que uma reunião da banda aconteça.
Com depoimentos de todos os integrantes (os do Canisso foram feitos nas pré-entrevistas, online, antes da sua morte em 2023 e eu gostei muito da decisão de deixá-las apenas em áudio) e aquele tanto de imagens de arquivo (com exceção daquelas capas de álbuns animadas com IA), Andar na Pedra consegue realizar a vontade que o ex-vocalista da banda tem: a gente se esquece da música, dos músicos, dos ídolos e começa a olhá-los como seres humanos. É foda demais essa desconstrução, ainda que em nenhum momento você se esqueça dos ídolos que moldaram seu caráter, dos músicos que faziam um som tão pesado quanto brasileiro, e das músicas que você volta a ouvir imediatamente.
Eu nunca fui a um show do Raimundos e nunca mais irei, primeiro porque óbvio, segundo também. Mas pelo menos agora eu vou ouvir os primeiros álbuns que esses caras fizeram em paz. Não em público, porque eu tenho 42 anos e vivo em 2026. Mas vou poder ver e ouvir tudo de um novo ponto de vista.
Não bastasse ser um produto muito foda pelo que faz com esse pedaço da história da música e da cultura pop brasileiras, Andar na Pedra faz com que aquele baixo de Eu quero ver o Oco nos acalme. Foda demais.
Uma reunião que podia ter sido um e-mail
por Thiago Borbolla
A ideia de uma reunião que poderia ser um e-mail surgiu da quantidade de tempo e energia gastos pra se ouvir coisas que poderiam ter sido escritas numa missiva eletônica.
Online tem toda aquela coisa de colocar roupa, desligar a música, garantir que ninguém entre onde você está; presencial tem de levantar de onde você tá, até ir pra outro andar, procurar a sala, uma cadeira boa num lugar bom (quem está na frente do ar condicionado geralmente quer muito ou não quer de jeito nenhum estar lá). Mas o mais importante de tudo é: ninguém trabalha. Dez, quinze, trinta minutos que são jogados no lixo porque alguém pensou que seria melhor e mais produtivo falar alguma coisa que em 10mins seria escrito e lido e o mundo seguiria.
Punisher: One Last Kill é exatamente isso. Queriam dizer que, desde que apareceu naquela jaula do Fisk em Demolidor: Renascido, Frank Castle resolveu o que tinha que resolver e percebeu aquele não era o fim? Tá bom. Não dava pra meter um “Frank Castle will return”?
Se a desculpa era só pra mostrar a violência do personagem, dava pra ter feito de alguma outra maneira. É tanto sangue que realmente incomoda, cansa. É tudo muito gratuito. Se só queriam mostrar mesmo o que aconteceu antes de ele aparecer em Homem-Aranha: Um Novo Dia... será que precisava?
Como um episódio de série talvez funcionasse. Como um curta-metragem, talvez fosse perfeito. Mas talvez seja só uma maneira de cumprir com o contrato de alguém, sem dizer nada pra ninguém.
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Semana passada trouxemos OPINIÕES sobre as duas últimas grandes estreias dos cinemas (que ainda são as últimas grandes estreias). O Borbs escreveu sobre O Diabo Veste Prada 2, uma sequência que parece não entender nada do que é dito no primeiro — e olha que tava todo mundo lá; e o Oda escreveu sobre Mortal Kombat 2, definitivamente um dos filmes já feitos. Vai lá ler!







Ótimo texto. Sobre Raimundos, confesso que não tenho muito o que comentar. Já sobre o alardeado "Especial" do Justiceiro, putz. Assisti com o meu pai, que é fã do personagem, e, bom, fica realmente a sensação de que decidiram gravar o Justiceiro brincando de tiroteio a esmo, sem nenhum pano de fundo justificável. É realmente tiro, porrada e bomba em menos de 1h em que você sai do nada para o absoluto lugar algum.
Vamos ver se a chave dourada será utilizada por ele em uma nova temporada do Demolidor ou até mesmo no novo filme do Miranha. No mais, acredito que todos esperavam mais de um "Especial" focado em um personagem tão icônico.....