Michael: quem define o vilão é quem quer controlar a história
Além de ficar procurando justificativas pra vida e carreira do Rei do Pop, Michael se esforça um pouco demais pra escolher um vilão pra essa história e não fica muito legal pros envolvidos, não
O primeiro trailer de The Kaiser, longa-metragem sobre o começo do futuro heptacampeão mundial Michael Schumacher na Fórmula 1, colocou ninguém menos que Ayrton Senna como o vilão desse início de carreira do piloto alemão.
Há alguns anos, Elvis se focou na difícil relação do protagonista com o Coronel Tom Parker, seu agente. Nessa visão, foi o empresário quem ocupou esse lugar na vida do Rei do Rock; algum tempo depois, em Priscilla, o vilão era justamente Elvis Presley.
Existem poucas figuras tão polêmicas, amadas e geniais quanto Michael Jackson. É difícil entender quem ele foi e o impacto do astro na vida das pessoas quando se olha muito de perto. Mas é isso que o diretor Antoine Fuqua (O Protetor) busca fazer em Michael, que chegou aos cinemas nesta quinta (23).
O longa conta a história do astro desde os primeiros acordes do Jackson 5, passa pelo estrelato do grupo, avança pela maturidade de Michael Jackson e chega ao momento em que, ainda jovem, ele se transformou no Rei do Pop, vendendo milhões de cópias dos álbuns Thriller e Bad.
Há um foco claro, enquanto acompanhamos tudo isso, no relacionamento de Michael com o pai, Joseph Jackson, notoriamente rígido, abusivo e manipulador. Porém, em vez de escolher construir essa relação de forma sutil, o roteiro busca, a todo momento, destacar excessivamente o efeito das ações de Joe sobre o filho como se fosse um elefante em uma loja de harpas. É como se, a cada cena, o filme buscasse justificar quem Michael se tornaria no futuro, com cada medo, mania e insegurança, diluindo em pouquíssimo tempo de tela a genialidade artística e mercadológica do protagonista.
Decisões importantíssimas de carreira que, na vida real, levaram semanas, meses ou anos de negociação e maturação são transformadas no que aqui no JUDÃO a gente passou a chamar de Momento MARTHA! — tudo parece ser resolvido em diálogos curtos, quase como epifanias, quando alguém diz a frase certa, na hora certa, e tudo muda.
Quando não coloca essa missão toda antes da história, contudo, Michael brilha. Cenas do então garoto no sofá, assistindo à TV ao lado da mãe, Katherine, dizem muito mais sem precisar dizer nada.
Quando olhamos para os créditos, o motivo dessas escolhas fica claro. Além de Graham King, responsável por Bohemian Rhapsody, os produtores são Jackie, Jermaine, La Toya, Marlon e Tito, irmãos de Michael, e Prince, que é o filho mais novo, ao lado de John Branca, que gerenciou a carreira solo e hoje é o executor do espólio do músico.
O filme foi moldado justamente por quem tem interesse direto na memória do personagem e que pode ganhar muito ao limpar a barra de Michael Jackson, abalada principalmente após o lançamento do documentário da HBO, Deixando Neverland, com relatos de dois homens que teriam sido abusados pelo músico quando eram crianças. Por isso, não é surpresa um caminho que defenda o protagonista. O problema é quando passa da linha de reverência para a de justificativa.
Paris, filha mais velha de Michael, atacou publicamente a gestão de Branca e suas interferências nesta produção. Não a condeno, ainda que a motivação dela tenha outros fins por trás — um processo por pagamentos feitos pelo espólio que seriam irregulares e o fato de ter escalado Miles Teller, pouco à vontade, quase desconfortável, fora de lugar (tanto quanto a peruca que usa em cena), para interpretar a si próprio.
Jaafar Jackson como Michael Jackson, em compensação, mostram um trabalho de maquiagem, cabelo e figurino impecáveis, e certamente agradará quem gosta de ver biografias em que o protagonista está idêntico à pessoa na vida real. O DNA ajuda, claro: Jaafar é sobrinho de Michael. Ele é filho de Jermaine, um dos integrantes originais do Jackson 5.
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Há também um certo peso nas costas do ator. Não estamos falando de alguém interpretando uma figura distante, mas sim o próprio tio, com quem conviveu e de quem deve sempre ouvir histórias. Em alguns momentos, é possível sentir que Jaafar está em cena, sentindo aquilo que o seu personagem deveria sentir. Em outros, parece mais preocupado em agir como Michael, caindo no lugar comum da imitação, o que pode agradar parte dos espectadores, ao mesmo tempo em que joga fora o drama real.
Por sorte, o vilão é tão forte quanto seu protagonista. Joe Jackson de Colman Domingo (Sing Sing) está impetuoso em cena. Assim, é possível entender a força daquele pai sobre os filhos e como, mesmo com eles mais velhos, os fazia lembrar a dor da cinta apenas com um olhar.
Os fãs certamente devem amar, independentemente de qualquer problema. Vão encontrar esse antagonista perfeito e uma vida de dificuldades que justifique quem Michael Jackson se tornou. Tudo embalado com uma trilha sonora genial, como não podia deixar de ser, e um visual marcante. Esse é mais um dos acertos do filme: mergulhar na obra da estrela sem nenhum receio.
Todo mundo é o vilão da história de alguém. No fim, a questão não é qual versão é verdadeira, e sim qual delas está sendo construída para prevalecer. Se Michael é o equivalente a Elvis, Deixando Neverland é a sua Priscilla.
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