O que fizeram com Star Wars?
A Força já não é mais tão intensa assim e O Mandaloriano e Grogu deixa isso claro. Enquanto isso, o Borat acordou num mundo dominado por mulheres femistas.
George Lucas apareceu sorrindo nas fotos da venda da Lucasfilm para a Disney. Mas bastava olhar dois segundos para perceber: aquilo ali era cara de derrota. Mais de uma década depois, O Mandaloriano e Grogu ajuda a explicar o motivo.
Em uma galáxia muito distante, num mundo dominado por mulheres femistas, Sacha Baron Cohen acorda em Primeiro as Damas, nova comédia da Netflix baseada em um filme francês de 2018 (que também está no streaming). A premissa parece daquelas perfeitas para o cinema esfregar verdades desconfortáveis na cara dos homens, mas revela algo ainda mais estranho sobre a forma como a própria sociedade imagina mulheres no poder.
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Nesta edição!
Mandaloriano, Grogu e o cansaço da Força
Sacha Baron Cohen não é um Homem Fácil
Mandaloriano, Grogu e o peso de existir para sempre
por Renan Martins Frade
No fim dos anos 1970, um jornal publicou uma ANEDOTA. Nela, um homem está sentado em um banco de praça, lendo jornal, quando outro se aproxima, senta ao lado dele e pergunta: “você já viu Star Wars?”. “Não”, responde o primeiro. O segundo então tira uma arma do casaco, aponta para ele e atira. “Pronto”, diz em seguida. “Agora sou o único no mundo que não assistiu a esse filme!”
Muita coisa aconteceu desde então, principalmente depois que George Lucas assinou os papéis de venda da franquia para a Disney, fazendo aquelas fotos ao lado do Mickey com uma cara de quem estava muito feliz por estar ali naquele momento.
É assim que chegamos a O Mandaloriano e Grogu, que estreou nos cinemas no fim de semana passado. Foi a pior abertura da saga em toda a história, com “apenas” US$ 167 milhões arrecadados. O recorde anterior era de Han Solo: Uma História Star Wars, com US$ 168 milhões no primeiro fim de semana. Mais do que números, isso mostra que o público não se empolgou.
Antes que alguém aponte o dedo, a culpa não é de Grogu. The Child, Baby Yoda ou como preferir chamar, carrega boa parte do filme nas costas. Também não é do diretor John Favreau, que conseguiu um dos poucos pontos de verdadeiro frescor nessa retomada de Star Wars na Era Disney, trazendo personagens cativantes e criando um universo que faz sentido de ser assistido de forma serializada. A culpa é mesmo do estúdio. Sem saber qual rumo seguir nos cinemas, e sem nada novo desde 2019, a Lucasfilm resolveu que era hora de alçar o Mando e seu pequeno protegido à tela grande.
Claramente, Favreau trabalhou com o que tinha. A história do filme passa a sensação de colagem de episódios pensados para fazerem parte de uma temporada de The Mandalorian. Ainda assim, o diretor se empenha em justificar a nova escala – tem IMAX, cenas de perseguição de tirar o fôlego, momentos fofos e empolgantes, tudo para criar um evento que justifique uma pausa no Disney+ ou (tentar) largar o TikTok por duas horas para ir ao cinema.
Enquanto isso, o diretor teve que lidar com a necessidade de apelar para um público maior do que o da própria série. Em parte, deu certo. Você “só” precisa ter assistido à trilogia clássica de Star Wars, entender o contexto da Nova República, saber que o tal do Baby Yoda existe e que o Mandaloriano é um ex-caçador de recompensas à serviço do novo governo. “Só”.
Tudo isso embalado por uma trilha sonora – assinada por Ludwig Göransson, que já tem três Oscars na estante – que simplesmente não deixa a história respirar, disputando a atenção com o que está na tela. Tem horas que o silêncio é o melhor caminho.
O resultado não é de todo ruim como parte da crítica faz parecer. O filme diverte, arranca suspiros e funciona como uma aventura. Perfeito para uma Sessão da Tarde, ou para assistir em família, com as crianças — e nem dá para julgar, já que até o próprio George Lucas se rendeu a isso. Como esquecer os Ewoks?
Do ponto de vista comercial, também faz sentido. O novo filme converge as iniciativas de cinema e streaming em uma só, usando a telona para divulgar o que tem no Disney+ e o público da plataforma como uma base de fãs para alavancar o longa. Fica bonito na apresentação para os investidores e, mesmo que o resultado financeiro não acompanhe, a empresa certamente vai divulgar aos quatro ventos o “recorde de audiência” quando a produção estrear no serviço de vídeo.
Só que, a essa altura, Star Wars merece mais. Na tela grande, a franquia já não parece o Grogu, cheia de vitalidade e, literalmente, força. Ela se parece mais com aquele moleque que foi impactado em 1977, ou que cresceu assistindo às reprises na TV nos anos 1980 e 1990, agora já cansado e preso à própria nostalgia.
Nos últimos anos, muitos projetos morreram pelos corredores da Lucasfilm, abandonados no que o mercado chama de “development hell”. O Mickey e a então presidente da divisão, Kathleen Kennedy também pareciam cansados.
Desde Janeiro o estúdio tem uma nova liderança, Dave Filoni (criador das Guerras Clônicas e Star Wars Rebels, entre várias outras séries) e Lynwen Brennan, agora co-presidentes. A missão? Transformar Star Wars em uma saga que realmente empolgante para o século XXI.
Não queria estar no lugar deles.
Em Primeiro as Damas, Sacha Baron Cohen não é um homem fácil
por Renan Martins Frade
Eu não sei vocês, mas, ao pensar em um mundo dominado pelas mulheres, só consigo imaginar algo melhor do que este em que vivemos. Pelo visto, não é bem assim em Primeiro as Damas, filme que acabou de estrear na Netflix.
Nele, Sacha Baron Cohen (Borat) vive um diretor de agência de publicidade misógino (o que é quase um pleonasmo) que se vê obrigado a lidar com a pressão pela diversidade. Depois de bater a cabeça, ele acorda em um mundo onde as mulheres dominam e são femistas (essa palavra não está no dicionário, mas o significado está para as mulheres assim como o machismo está para os homens). O elenco ainda tem Rosamund Pike.
A essa altura, você provavelmente está sentindo um déjà vu. Não só o cinema adora histórias de realidades paralelas que colocam as pessoas em seu “devido lugar”, como o próprio roteiro não é exatamente novidade. Primeiro as Damas é uma adaptação de Eu Não Sou um Homem Fácil, produção francesa que também está disponível na Netflix.
As duas versões caem exatamente no mesmo erro: o da masculinização feminina. Será que as mulheres precisam sempre assumir posturas, vícios e gestos historicamente associados aos homens ao ocuparem cargos de poder? É só isso que o roteiro consegue imaginar? Mulheres deixando o lugar de oprimidas para ocupar o de opressoras?
Os dois filmes até funcionam como uma espécie de exercício educativo. Ao inverter os gêneros, espectadores homens conseguem entender o quão reprováveis, ridículas e, claro, misóginas podem ser muitas atitudes do dia a dia. É desenhar para nos colocar no lugar do outro.
O problema é que a versão americana perde parte desse impacto ao trocar o toque francês pelo humor mais caricato de Baron Cohen. Faz rir, mas será que cria alguma identificação? No final, você só quer que o personagem dele se exploda.
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Para muito além de uma série ótima, Margo’s Got Money Troubles mostra um trabalho de Elle Fanning, na frente e atrás das câmeras, que a coloca em um novo patamar em Hollywood: a Meryl Streep da Geração Z. Vem ler aqui o texto do Borbs, um ser humano empolgado sim, mas jamais exagerado!







