Mortal Kombat + O Diabo Veste Prada 2
Assistimos às duas últimas grandes estreias dos cinemas e percebemos que ambas as sequências possuem mais coisas em comum do que gostaríamos (e esperávamos)
Sequências de filmes com 20 ou mais anos de idade (ok, um deles em teoria é uma sequência de produção que estreou no meio da pandemia, mas tudo começou em 1995) chegando aos cinemas quase que ao mesmo tempo, oferecendo fanservice pra quem é de fanservice, mas falhando em oferecer bons filmes, mostrando que uma coisa raramente tem a ver com a outra.
Mortal Kombat 2 - O Filme não chega a ser ruim, mas é definitivamente um dos filmes já feitos. O Diabo Veste Prada 2 também é um filme ok, divertido, mas vazio do que fez o primeiro ser o que é ainda é. Oda e Borbs, respectivamente, desenvolvem mais as ideias nos textos completos que você lê nesta MALA DIRETA.
AH! A gente assistiu também à Casar com um Assassino? e percebemos que a pergunta tá bem errada em relação ao que vimos nessa série. Tá tudo aí embaixo!
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Nesta edição!
O divertido fanservice de Mortal Kombat 2 - O Filme
O decepcionante fanservice de O Diabo Veste Prada 2
E MAIS! Uma minissérie que questiona se é o caso de casar com alguém que matou outra pessoa, quando na verdade deveria questionar se é o caso de confiar na polícia; e o season finale de Demolidor: Renascido
Quem curte os joguinhos, vai curtir o filme. Já quem curte filmes talvez prefira outra coisa.
por André Mello
Meu primeiro contato com Mortal Kombat foi jogando o segundo jogo no Mega Drive de um vizinho. Os comandos em um controle de 3 botões eram horríveis, mas aquele jogo me deixou impressionado. Eu tinha uns 8 anos e aquilo parecia incrível.
Eu assisti ao filme de 95 no cinema e quando ele saiu na locadora, minha irmã conseguiu gravar num VHS que eu assisti tantas vezes que foi onde eu comecei a entender inglês. Papo sério. Então, Mortal Kombat tem um lugar especial no meu coração, por mais que a franquia seja uma montanha russa de altos e baixos.
Por conta disso, eu preciso falar sobre Mortal Kombat 2: O Filme de duas maneiras. Como essa pessoa que cresceu jogando e gostando da franquia, e alguém vendo um filme qualquer.
Como fanservice, é muito legal
Mortal Kombat, filme de 2021 que a Warner lançou simultaneamente nos cinemas e na HBO Max (que depois virou Max e agora é HBO Max de novo) não é um filme glorioso. Pra se ter uma noção, nem tem o torneio. Ele passa uma impressão de piloto de série de TV, ainda mais quando coloca um novo personagem que nem existe nos games.
Mesmo assim, eu me diverti. Tem umas lutas legais, uma violência caótica e o finalzinho deu o gancho para aquilo que todo mundo queria ver: MORTAL KOMBAT. O torneio finalmente começaria e o filme foi realmente um jeito de preparar o terreno.
Meio mundo desceu a lenha na produção, principalmente por terem colocado Cole Young, o tal novo personagem, como centro de toda a trama. Quando a sequência foi anunciada, com um papo de “fazer um filme para os fãs”, tava claro que o Cole seria jogado pra escanteio, o que foi confirmado com o anúncio do Karl Urban como Johnny Cage.
E aí chegamos em 2026 e Mortal Kombat 2 na telona. De fato, o filme parece ter sido feito com uma checklist de tudo o que fãs reclamaram na internet sobre o anterior pra que não fosse esquecido na sequência. Tá tudo lá, até uma homenagem à capa de Mortal Kombat 2, o jogo, logo nos créditos iniciais que me tirou um sorriso bastante sincero. É recheado de easter eggs que vai fazer os fãs olharem e pensarem “ISSO TEM NO JOGO”. Foi logo ali que eu percebi que seria esse tipo de filme.
Até certo ponto, isso é bastante legal. Não chega nem perto do caos do trailer da nova adaptação de Street Fighter, mas tá lá. Como um todo, pensando como fã, a história foi exatamente o que eu esperava que fosse e ainda tinha essas bobeirinhas pra eu lembrar e “Pô, maneiro”.
Mas aí eu preciso também pensar como alguém que vê filmes como ~profissão.
Como filme, é um dos já feitos
Mesmo com todos os seus defeitos, Mortal Kombat, o de 2021, tinha uma história bem fechadinha. Não digo que ela era particularmente inspirada, mas existia ali um começo, um meio e um fim, com personagens bem posicionados no seu desenvolvimento.
A franquia Mortal Kombat, que já foi rebootada umas duas vezes, tem um lore absurdo que poderia ser aproveitado na tela grande.
Mortal Kombat 2 - O Filme, tem um fio de história. Ele começa supondo que se você tá assistindo à Mortal Kombat e uma sequência dele, você não só já viu o primeiro como entende muito bem de todos os jogos. Só assim pra compreender como as coisas vão acontecendo com o mínimo de desenvolvimento.
Tirando a Kitana, interpretada pela atriz Adeline Rudolph, todos os outros personagens são “ideias”. Ela tem um arco válido, mostrando como seu pai foi assassinado pelo Shao Khan e tenta vingança contra ele. Só que até essa trama é tratada como se boa parte do seu desenvolvimento tivesse acontecido fora do filme. “Ah, mas todo mundo que jogou sabe”. Tudo bem, mas eu tô falando do filme e se vão usar isso ali, poderiam ter desenvolvido melhor.
Os personagens do primeiro estão de volta (até quem já morreu) e são coadjuvantes que só servem pra lutar. Existe um fio com o Liu Kang querendo trazer o meio zumbi Kung Lao de volta (o que resulta na melhor luta do filme) que é tratado em meia dúzia de palavras, sendo que poderia render muito mais — isso tudo pra dar destaque para um plano de roubo de um medalhão (que faz mais sentido só pra quem jogou) e o desenvolvimento PÍFIO de Johnny Cage, um ator canastrão que se vê no meio de um torneio pelo destino da humanidade.
Por mais que eu goste bastante do Karl Urban como ator, ele não consegue ser um Johnny Cage realmente legal. Em praticamente todo o filme, ele serve mais como alívio cômico do que alguém que quer provar ser mais que um “ator de ação”. Não consegui gostar dessa versão quase covarde do Cage, meio boba e que só se torna um herói (e olhe lá) porque o roteiro precisava disso.
E preciso ser sincero: um filme sobre um torneio de lutas até a morte ter UMA LUTA E MEIA decente é sacanagem. Quase nenhuma pancadaria empolga, com exceção dessas que eu falei. Dava pra contratar alguém pra coreografar melhor, na moral.
A dualidade do ser humano
Me sinto dividido por esse filme. Por um lado, ele tem várias coisas que eu olhei e “Pô, bacana”. Por outro, fico impressionado como o filme de 95 consegue ser superior em várias coisas. Até mesmo a nova versão da música tema clássica não é tão legal quando a original.
Assistir ao filme de 2021 e esse na sequência deve ajudar a tapar alguns buracos, mas isso só mostra que ele é um filme pra ver de bobeira em casa. Talvez assim funcione, ou você pare na metade pra começar a jogar Mortal Kombat no videogame. Quem sabe essa seja uma ideia melhor.
PS: o filme não tem cena pós-créditos, mas o final dele me deixou revoltado de tão feito nas coxas que é.
O Diabo diz que o Diabo veste Prada
por Thiago Borbolla
O Diabo Veste Prada é como um tubarão a 1 segundo de um bote certeiro. A boca aberta, os dentes afiados, não vai sobrar pra ninguém. Não existe uma única unidade de flor que deva ser cheirada naquele filme, ainda que todas sejam bonitas de se ver.
Miranda Priestly não tá fazendo nada de bom com Emily e Andy que, por sua vez, também não foi nem a melhor namorada, nem a melhor amiga do mundo. Miranda, porém, também é vítima, assim como Andy e Emily, que se completam em algum nível de escrotidão e sim, o namorado da Andrea talvez pudesse ter oferecido um pouco mais de apoio em algumas das decisões da namorada — mas não chega nem perto de ser o “verdadeiro vilão” do filme.
Ok, talvez a exceção seja Nigel. Ainda assim, precisando fechar bem os olhinhos pra tentar enxergar algo ali. Sabe, ali? Ali, ó. Iiiisso, isso mesmo.
“What are we? Some kind of Devil wearing Prada?”
O mundo da ALTA COSTURA parece mesmo bonito, interessante e, como o filme faz questão de reafirmar o tempo todo, artístico. Mas é também um moedor de pessoas, de almas, de humanidade. É exatamente como o capitalismo, onde essa tal haute couture nasceu e falhou, falha e falhará.
O Diabo Veste Prada 2 é a boca do tubarão no exato momento em que o que quer ele fosse predar consegue fugir: completamente fechada, com cada um daqueles dentes se encaixando perfeitamente entre eles, e aquela carinha de constrangimento e vergonha indo pra outro lado, como se nada tivesse acontecido.
Não sei se era possível esperar uma sequência de fato, que caminhasse com a história e suas próprias pernas e desenvolvesse os personagens. O fato de todo o elenco original estar de volta já define que estamos em um ambiente fechado e diretamente conectado com o filme de 2006. É uma reunião em que os yin-yangs se encaixam, os quebra-cabeças formam figuras belíssimas, e onde os dedos das mãos se entrelaçam e tudo se fecha.
Todos ali conseguem a sua redenção. Andy construiu uma carreira como jornalista e agora retorna pra salvar a revista Runway; sua única amiga que sobrou agora trabalha numa grande galeria de arte; Emily agora tem um cargo importante na Dior, ao invés de uma marca fictícia e, vinte anos depois, o tempo conseguiu domar Miranda Priestly. Não só domar: ela parece até ter criado um coração, o que acaba tirando a magia da atuação de Meryl Streep, que também parece fisicamente mais frágil agora. Mais, que ironia, humana.
A principal redenção, porém, é de Anna Wintour, a ex-editora-chefe da revista Vogue, em quem Miranda foi inspirada com pouco ou nenhum uso de hipérboles. Enquanto no primeiro filme muitas vezes era complicado até conseguir um lugar pra filmar cenas importantes por conta da sua influência e os seus tentáculos (lembra da festa no Museu de História Natural? Agora foram pra Milão durante a semana de moda, filmaram na Galleria Vittorio Emanuele II e Accademia di Brera…), no segundo filme temos isso aqui:

“Everybody wants this. Everybody wants to be us”
O Diabo Veste Prada não é muita coisa além de um filme Sessão da Tarde e isso está longe de ser um problema. Tem estofo, é divertido e, como pede um vídeo que viralizou recentemente, mais cores, mais arte, mais a dizer. É quase como se tivesse sido feito numa dimensão-espelho, num universo em que, apesar de todos os problemas, a gente conseguia encontrar uma luz no fim do túnel.
Sua sequência é, em compensação, tudo o que o primeiro crítica, do início ao fim, em todas as suas principais falas. Não é um filme visionário, é apenas… uma jornada de reparação e um grande publi de marcas de luxo, como se as asinhas abertas lá atrás enfim tivessem sido cortadas por quem esperou 20 anos pra poder mandar cortá-las -- e se levarmos em consideração os estúdios responsáveis pelos dois filmes, isso diz bastante coisa. O que Andy Sachs fez duas décadas atrás com a Emily, esse número dois faz com o original.
O Diabo Veste Prada 2 tambem é divertido e inegavelmente mais estiloso, muito por conta da idade e experiência de todos os envolvidos, mas também por conta de todos os envolvidos. Agora recheado de marcas e participações especiais, dentro e fora dos cinemas (eu, por exemplo e por influência da morena, assisti ao filme numa sessão especial “de conforto”, onde ganhamos uma bolsinha e uma mantinha que custa mais de $200) o que parece é que, pra falar de algumas questões realmente interessantes, como o uso de IA, de como redes sociais e bilionários estão matando em muitos níveis o jornalismo e tudo o que a gente gosta, entre outras pouquíssimas coisas, foi preciso fazer concessões. Assim como acontece com Miranda logo no começo, o filme abaixou a cabeça e aceitou imposições, sem discutir, pra conseguir seguir em frente. “Sem nós não existe vocês”, afinal.
Um círculo perfeito, iniciado 20 anos atrás, se encerra com O Diabo Veste Prada 2. Mas um círculo oco, recheado de nada, girando no próprio eixo, sem sair do lugar. Um tubarão com uma mordida poderosa dada no vazio, sem nem beliscar aquele peixinho saborosíssimo.
Sem alma, O Diabo Veste Prada 2, se algum dia for lembrado, será apenas “uma das Emilys”.
O que mais vimos por aí…
🚓 De maneira culposa, comecei a assistir à Casar com um Assassino?, minissérie ddocumental em 3 episódios que estreou no último dia 29 na Netflix. Bastante bem produzida, a série nos leva até a Escócia pra mostrar Caroline Muirhead contando a história de um namoro com uma pessoa que, com pouco tempo de relacionamento, não só pediu a moça em casamento como contou que havia atropelado, matado e enterrado uma pessoa.
Comecei sem querer, mas terminei ativamente querendo algumas respostas que nunca vieram. O tal do dilema de Caroline deveria ser menos sobre se casar ou não com um assassino e sim sobre confiar na polícia. Em qualquer polícia, sobre qualquer motivo. Seria uma história melhor e mais interessante se o foco estivesse em como quem deveria proteger as pessoas consegue piorar situações que são absolutamente horríveis. Thiago Borbolla
👿 E já que estamos aqui, vamos aproveitar: a segunda temporada de Demolidor: Renascido acabou essa semana e o gostinho de PUTAQUEPARIU CARALHO PORRA BUCETA CU COMO QUE NINGUÉM NAQUELE UNIVERSO COM TROCENTAS DIMENSÕES FAZ NADA fica bem forte. Não é um gosto ruim, não. Mas o último episódio, que é gibi pra caralho, deu a sensação de que se a história fosse num ambiente um pouco mais controlado do que a FODENDO CIDADE DE NOVA YORK, desceria melhor e mais direto. Foi uma boa temporada para uma boa série. Thiago Borbolla
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Além de ficar procurando justificativas pra vida e carreira do Rei do Pop, Michael se esforça um pouco demais pra escolher um vilão pra essa história e não fica muito legal pra nenhum dos envolvidos não, viu? Leia a resenha completa aqui!











Realmente aceitar que o Fisk fez o que fez em NY com somente o Demolidor reagindo é extremamente inverossímil. Entendo que eles fizeram um mix de Netflix + A Queda de Murdock com pitadas de o Diabo da Guarda e, como não poderiam mostrar toda a vasta gama de super-heróis nova iorquinos, foi o que deu para fazer. O destaque, pra mim, foi a atuação do Wilson Bethel como Mercenário. A temporada foi praticamente dele. Vale também mencionar o Arty Froushan como Buckman. Um ator muito bom que espero que continue na próxima temporada.
Quanto aos filmes citados, ainda não assisti MK, porém já vi o Diabo Veste Prada 2. O filme tem muitas coisas que realmente mereciam um desenvolvimento melhor, como o reconhecimento merecido do Nigel e a questão dos Magnatas do Silício invadindo e precificando tudo, inclusive o Jornalismo. Infelizmente, o longa também apresenta decisões extremamente questionáveis.
A principal delas, a meu ver, é a regressão da Andy. Ela parece ainda mais ingênua do que no primeiro filme, fora o namoro construído do mais absoluto nada. Já a Miranda, bom, é difícil ver uma personagem como aquela domada, ponderando tudo o que fala e faz. É meio difícil acreditar que uma personalidade como a vista no primeiro filme se prestaria a tal papel, por mais que o tempo tenha passado.