Brasil 70: A saga do Tri joga bonito, mas não encanta
Retratar a Seleção de 70 é fácil. Difícil é transformar Pelé e Zagallo em personagens capazes de sustentar um drama. Mas ainda bem que temos João Saldanha!
Quando o Borbs escreveu aqui sobre aquela série do Césio-137 e o fato de que não é só porque a gente gosta de alguma coisa que aquilo é de fato bom, ele trouxe um fato em comum nessas últimas séries de serviços de streaming baseado em fatos reais: produtoras. Enquanto algumas entram nessa pra engordar os bolsos apenas e tão somente, existem aquelas que o fazem como portfólio.
No texto, ele citou por exemplo o filme 2 Coelhos, que era cheio dos efeitos especiais e serviu pra mostrar ao mercado o que aquela galera poderia fazer. Ninguém pode questionar o que a O2 Filmes consegue realizar, mas eles resolveram mostrar ainda mais o seu poder com Brasil 70, em específico, com os jogos e os estádios — todos gravados no Estádio Niterói, em Carapicuíba (SP).
A quem interessar possa, existe um making of mostrando como tudo foi feito no serviço de streaming. E vale a pena, pra quem gosta de ver como as coisas são feitas.
Quanto ao roteiro, história e atuações, bem… aí vocês podem ler o texto do Renan aí embaixo. ;)
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Nesta edição!
Jogar bonito não ganha jogo, como mostra a minissérie Brasil 70
Backrooms, o não-filme baseado numa ideia surgida no 4Chan
Rodrigo Santoro salva Brasil 70 do empate
por Renan Martins Frade
Dramas esportivos são complicados. De alguma forma, precisam respeitar os acontecimentos reais ao mesmo tempo que precisam estar à altura da memória coletiva sobre o que ocorreu e sobre quem eram aquelas pessoas — algo que nem sempre corresponde à realidade. Por fim, é necessário criar conflitos que movimentem a narrativa e a encaixem dentro das fórmulas da ficção. E tudo isso depende de atuações convincentes pra dar certo.
Brasil 70: A Saga do Tri se perde entre todos esses objetivos.
Como recriação de época, a minissérie é quase perfeita. Uniformes, carros, objetos de cena e boa parte dos cenários estão impecáveis. A caracterização do elenco funciona muito bem, e a escolha de atores com experiência no futebol ajuda na recriação das jogadas mais importantes da Copa do Mundo do México. Até aí, porém, isso renderia um ótimo documentário.
O problema é que falta liga aos conflitos escolhidos para mover os personagens, especialmente aqueles envolvendo o próprio Pelé. Em parte por causa do roteiro, mas também pelas atuações.
A opção por privilegiar atributos físicos em detrimento da capacidade dramática cobra seu preço. O principal sintoma está justamente em Pelé. Lucas Agrícola se esforça, mas entrega pouco nesse aspecto. Curiosamente, a interpretação quase dá a volta: a inexperiência do ator acaba lembrando a forma engessada como o Rei costumava se expressar em público. Ainda assim, o resultado se aproxima mais da imitação do que da construção de personagem.
O que Brasil 70 acerta em cheio é a escalação de Rodrigo Santoro como João Saldanha, o jornalista que treinou a Seleção até poucos meses antes da Copa, montou a base do time campeão e acabou demitido por não abaixar a cabeça ao ditador de plantão em Brasília. Santoro entrega a força necessária ao personagem, e o roteiro consegue incorporar diversos acontecimentos reais da trajetória de João Sem Medo, como o episódio em que aproveita o sorteio dos grupos, no México, para entregar um dossiê com três mil nomes de presos políticos e denúncias de tortura e assassinatos cometidos pelo regime.
Tudo isso perde força, porém, porque Zagallo, que deveria funcionar como seu contraponto e antagonista, acaba diluído por uma representação que flerta com o humor. Não é uma falha de Bruno Mazzeo, que interpreta o técnico do tri. A própria escolha do ator para o papel já é um sintoma dessa abordagem.
Brasil 70: A Saga do Tri é um bom passatempo para entrar no clima da Copa do Mundo deste ano enquanto conhece – ou relembra – a nossa história nos gramados do mundo. Mas, se você quiser magia de verdade…
O que mais vimos por aí…
🚪 Backrooms: Um Não-Lugar talvez seja um “não-filme”. No bom sentido. Tudo começou com os backrooms, conceito surgido no 4Chan em 2019 que inspirou o youtuber Kane Parsons a criar uma série de vídeos virais. A A24 viu potencial na ideia e convidou o jovem diretor – hoje com apenas 20 anos – para comandar uma versão em longa-metragem. E assim chegamos ao filme que agora está em cartaz nos cinemas brasileiros.
O que chama a atenção é a forma como Parsons transforma aquelas salas estranhas, acarpetadas e iluminadas por uma luz fluorescente pálida em uma manifestação concreta de nossas mentes fraturadas, da solidão e da maneira como a memória registra os cenários de nossas vidas de forma fragmentada e muitas vezes sem sentido.
O personagem principal, Clark (Chiwetel Ejiofor), é o nosso guia por esse mergulho em recintos intermináveis e em como tudo aquilo reflete os conflitos dentro de sua própria mente. Já Mary (Renate Reinsve) é a terapeuta que tenta resgatar seu paciente daquele labirinto, tanto metafórica quanto literalmente. Mas há um limite para sua atuação: o verdadeiro monstro na sala.
Backrooms é um terror atmosférico que funciona não apenas por ser diferente, mas também por permanecer aberto a interpretações. Cada espectador projeta suas próprias experiências naquilo que vê, assim como acontece com as imagens que deram origem ao fenômeno. Por isso, tudo perde força no último ato, quando Parsons tenta oferecer alguma explicação para aqueles fenômenos. Não precisava.
Se esse final te incomodar, o próprio filme sugere uma alternativa: relembre o que viu de outra forma. Só não é muito saudável…
Leia também!
Semana passa publicamos também uma resenha feat. reflexão sobre o que fizeram e estão fazendo com o Star Wars desde de 2012 a partir da estreia de O Mandaloriano e Grogu. Já leu? Se não leu, vai lá ler!






