There is no dark side of the moon, really. Matter of fact it’s all dark.
A gente volta pra Lua, mas sem entender nada o que Jornada nas Estrelas nos ensinou sobre viagens espaciais. A gente assiste a Demolidor, mas não consegue absorver nada do que tá vendo. Como que pode?
Essa semana rolou a possibilidade, pelo menos por algumas horas, de quatro pessoas -- três homens e uma única mulher -- serem os responsáveis por repopular a Terra.
Enquanto a Artemis II foi até ali rapidinho dar uma volta na Lua, os EUA ameaçaram “aniquilar uma civilização inteira” depois de perceberem que estavam se afogando na própria merda que fizeram e não se cansam de fazer. Nada disso aconteceu (quer dizer, a Artemis II realmente foi até a Lua e já tá voltando), mas e o desespero?
É parecido com o de assistir a Demolidor - Renascido e ver tudo o que o Wilson Fisk tá fazendo em Nova York e não surgir um mísero super-herói pra dar um basta naquilo. Ou uma câmara de vereadores, deputados, presidentes, cortes superiores... É desesperador perceber que tá todo mundo vendo o que o cara tá fazendo e ninguém que pode se mexe pra fazer qualquer coisa.
Exatamente como na vida real. Como que pode?
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“Eu vou pro mundo da Lua”
por Renan Martins Frade
"Astronauta, tá sentindo falta da Terra?
Que falta que essa Terra te faz?
A gente aqui embaixo continua em guerra
Olhando aí pra Lua, implorando por paz.Dia 6 de Abril de 2026. Os astronautas da missão Artemis II bateram o recorde de distância da Terra. Nunca um ser humano havia ido tão longe no espaço. Chegaram ao lado oculto da Lua. De lá, fotografaram essa bola, já não tão mais azul, que flutua na vastidão do cosmos dentro de um equilíbrio tênue.
Uma imagem que revela a nossa pequenez em meio ao infinito.
Daqui, seguimos em guerra. Donald Trump ameaçou aniquilar a civilização iraniana, o que muitos na história tentaram e ninguém conseguiu — ele “mudou de ideia” pouco depois. Israel segue bombardeando a Palestina, o Líbano, e o Irã. A Rússia ataca e invade a Ucrânia. Incontáveis civis morrem todos os dias. Em São Paulo, um motorista bêbado invade a calçada, atropela e mata duas crianças.
O feito da NASA é extraordinário. Principalmente para alguém como eu, que cresceu inspirado pelos ideais de Gene Roddenberry em Jornada nas Estrelas – ou Star Trek, para os novatos.
Na visão de Gene, a aventura espacial representava a união de todos os povos da Terra. Seria quando a infinitude do universo nos mostraria que há mais do que nos une do que nos separa. Contudo, essa união precisaria ser renovada dia a dia, minuto a minuto, nos fazendo entender – e superar – as diferenças que nos tornam únicos.
Não à toa, ele escolheu o nome da nave que nos levaria nessa viagem: Empreendimento. USS Enterprise.
A aspiração era política, também. O governo do nosso planeta se chamaria Terra Unida. Sem países ou fronteiras traçadas em mapas. Juntos, faríamos parte da Federação Unida de Planetas.
Não haveria dinheiro, ao menos no sentido tradicional. A acumulação de riqueza deixaria de ser a força motriz da sociedade, substituída pelo conhecimento e o bem-estar. A fome e a pobreza seriam extintas.
A beleza da obra de Gene é que a exploração do cosmos seria científica, mas, ao viajar pelo universo, capitão Kirk, Spock, Magro, Scott, Uhura, Tchecov, Sulu e toda a tripulação encontraria outras civilizações – algumas atrasadas, outras mais avançadas – que representavam exatamente os nossos conflitos mais terrenos. O espaço poderia ser a fronteira final, mas ela ficava muito mais próxima do que muitos gostariam de aceitar.
A viagem da Artemis II, de alguma forma, é uma esperança de que essa visão idílica se torne realidade. Acontece que a Terra nos puxa para baixo.
"There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us,
But he thinks he'd blow our minds"A gente aprende nas aulas de história: as missões Apollo, nos anos 1960 e 1970, foram parte da Guerra Fria. Os Estados Unidos queriam demonstrar a força (científica ou não) que possuíam, batendo a União Soviética em uma corrida espacial. Quando a URSS passou a enfrentar as suas próprias crises, os estadunidenses comemoraram a vitória e abandonaram o objetivo lunar.
Mais de 50 anos depois, a história – que teve as suas tragédias, como a Apollo 1 – se repete com um quê de farsa.
Depois de décadas de tentativas e pedidos da NASA, o Programa Artemis foi iniciado em 2017, após uma ordem executiva de Trump, que estava ainda em seu primeiro mandato. O que mudou foi a China: inspirada justamente pelos Estados Unidos, o país havia iniciado anos antes o seu próprio projeto de ida à Lua.
Agora, o presidente dos EUA tenta colher os frutos disso em um momento em que sua popularidade está arranhada entre os eleitores, e em ano de eleições de meio de mandato, nas quais ele tem grande chance de perder a maioria no Congresso.
É por isso que os astronautas conversaram com ele diretamente da espaçonave Orion e que as primeiras fotos do lado oculto da Lua foram divulgadas pela Casa Branca. No mesmo perfil do Instagram que, antes e depois, exaltou os resultados da “Operação Fúria Épica”, eufemismo para a guerra no Irã.
Além disso, a grande diferença da Artemis para a Apollo é a presença da iniciativa privada. Nos últimos anos, empresas iniciaram a sua corrida espacial particular, sempre com interesses mais comerciais.
A NASA tem contratos tanto com a Blue Origin (de Jeff Bezos) quanto com a SpaceX (de Elon Musk) para o desenvolvimento do módulo tripulado que irá fazer a alunissagem da Artemis IV em diante. Para os críticos, essas companhias estariam tornando as naves mais complexas do que deveriam, o que poderia atrasar a missão – inicialmente programada para 2027, agora agendada para 2028 – e deixá-la ainda mais cara.
Já Musk esfrega as mãos durante a aventura espacial. É que ele prepara um IPO (abertura de capital na bolsa) da SpaceX para breve – e o sucesso do Programa Artemis é uma vitrine sem igual, mesmo que ele não esteja envolvido com a atual viagem. Caso a oferta pública seja um sucesso, e tem tudo para ser, o bilionário se distanciará ainda mais na posição de homem mais rico da história moderna, em uma acumulação de capital sem igual.
A verdade é que muitos olham para a Lua como uma oportunidade para além da ciência e da exploração: o satélite natural esconderia outras riquezas em seu solo – como silício, alumínio, ferro, hélio e metais raros. Há até conceitos e projetos de como poderia ser feita essa extração, em uma demonstração clara de que a humanidade não aprendeu nada com os erros em seu próprio planeta.
Gene Roddenberry não tinha uma visão ingênua de nós. Ele sabia que, para chegar às estrelas, precisaríamos ver em grande parte a nossa própria ruína. A história imaginada por ele para desembocar em um futuro inspirador incluía tiranos, armas nucleares e uma Terceira Guerra Mundial.
Precisaríamos chegar ao fundo do poço terreno para entender nossa pequenez frente às estrelas. É nisso em que eu, com otimismo, me apego.
"There is no dark side of the moon, really.
Matter of fact it’s all dark"Texto dedicado a Victor Manuel Filgueira Besada, meu tio e padrinho, que faleceu nesta semana, aos 83 anos. Galego de O Grove, veio para cá ainda muito jovem – e desbravou o Brasil e parte da América Latina como o astronauta da Terra: um caminhoneiro. Amava a Espanha, mas não se cansava de dizer que a gente precisava conhecer o quanto a nossa própria terra é linda.
Na vida real e na ficção, como todo mundo vê o que tá acontecendo e ninguém faz nada?
por Thiago Borbolla
Assim que a gente anunciou o retorno do JUDÃO, abrimos uma caixinha de perguntas lá no Instagram pra, claro, esclarecer algumas dúvidas e ouvir o que os TRANSEUNTES tinham a nos dizer. Foram perguntas legais, mensagens de encher o coração, mas teve um ali que questionou se agora o JUDÃO teria “essas coisas de ideologia e política”. Agora. Em 2026, mais de 10 anos depois que tomamos a decisão de passar a tratar a cultura pop não apenas como entretenimento, mas como ferramente de mudança real do mundo em que vivemos.
Tudo bem que ficamos quase seis anos no Limbo, mas qual JUDÃO esse cara tava lendo / ouvindo / assistindo desde 2015?
Quando a gente recebeu os oito episódios da segunda temporada de Demolidor - Renascido pra assistir e escrever sobre (o que fizemos aqui, caso você ainda não tenha visto), eu e o Oda estávamos conversando sobre o fato de que parece que não existe nenhum outro super-herói em Nova York, ficando tudo nas costas do Atrevido e, com algum esforço, o Justiceiro.
Eu ainda nem tinha assistido à primeira temporada e, na época, comentei que tava gostando um pouco mais, nesse momento, de histórias mais solo -- o que provavelmente me fez curtir mais o filme do Quarteto Fantástico, por exemplo. Odair argumentou que era diferente, nesse caso, porque não era possível que aquelas coisas acontecessem sem ninguém intervir.
Nesse meio tempo, o autocrata que foi eleito não uma, mas duas vezes para a presidência dos EUA, atacou o Irã junto com Israel, ameaçou destruir toda aquela civilização se o tal CLUSTERFUCK que ele mesmo impôs ao mundo não fosse corrigido. No Brasil, quem deveria estar apodrecendo na prisão tá em casa de boa, recebendo aliados políticos e, bem, ainda apodrecendo, mas talvez um pouco mais lentamente. Aqui em casa eu me atualizei com a série do Demolidor e, ok, consegui entender o que o Oda quis dizer.
Porque não é só uma questão de “Universo Cinematográfico da Marvel”, histórias interligadas. O que caralhos está fazendo o Homem-Aranha que vê o Wilson Fisk criar uma milícia que não segue a constituição e responde unica e exclusivamente ao próprio Wilson Fisk? Onde tá o Homem-Aranha, o Capitão América, os Thunderbolts*, os Guardiões da Galáxia, sei lá mais quem tá vivo? As cortes superiores, os vereadores, os deputados, governadora (essa até apareceu, mas vamo lá), senadores, presidente?
Como é que TODO MUNDO vê o que tá acontecendo em Nova York e ninguém, absolutamente NINGUÉM, faz qualquer coisa?
A gente aprendeu nessa última semana que o cidadão americano não consegue sair pras ruas protestar porque tem medo de perder emprego, porque Washington é muito longe e o país é grande demais, porque tem medo de apanhar da polícia. Sim, seu filhodaputa... como em QUALQUER OUTRO LUGAR DO MUNDO, como aqui na América Latina -- a não ser, claro, que você esteja protestando em favor do sistema, aí não tem com o que se preocupar.
Mas o que mais me... não vou dizer choca, porque não me surpreende, mas me deixa completamente EMBASBACADO, é que ninguém consegue enxergar o que tá acontecendo no Mundo nesse exato momento, mesmo que esteja absolutamente desenhado, escancarado, na sua frente. O Renan falou de Star Trek, e eu me lembrei de um jornalista que baseou quase toda a sua carreira em Jornada nas Estrelas e, de repente, se mostrou uma pessoa reacionária e ultradireitista. Como? Como alguém consegue assistir a Star Wars e não fazer qualquer ligação com o nazismo de antes e os nazismos de hoje, tanto nos EUA quanto em Israel? Como alguém assiste à Demolidor - Renascido e não consegue entender que Wilson Fisk é Donald Trump, que a “força tarefa” é o ICE? Como que você pode reclamar de violência e censuras em países socialistas / comunistas e não perceber que o que acontece lá é pra “defender o sistema”, exatamente como acontece nos países capitalistas, como o Brasil e os EUA, inclusive na ficção? Como que ninguém consegue se colocar minimamente no lugar do outro? Como que faz pra entalar a cabeça dentro do próprio cu, se alimentar de merda e achar que isso é tudo e tudo bem?
Me dá nervoso. Minha ansiedade ataca. Eu sinto vontade de parar de assistir. Mas, como disseram outro dia no Bluesky, “se a esperança não fosse revolucionária, não iam fazer tanto esforço pra arrancar de vocês”. É um fato. A esperança e a arte. Mesmo sabendo que a pessoa que tá do seu lado agora e que você gosta muito pode assistir a esses filmes, séries, notíciarios, ler livros e gibis e não conseguir absorver nem uma palavra, não é assim que eles vencem. É nos fazendo acreditar que tudo está indo pro caralho. Enquanto a gente desiste, eles se vendem como salvadores e muita gente compra.
Pode ser (quase com certeza vai) que a gente não consiga ver a queda desses desgraçados. Mas se a gente olhar pra Star Wars e Star Trek, ou até mesmo pra vida real, a gente consegue enxergar uma luz no fim de algum túnel. A gente sabe que uma hora vai, que eles vão cair. Vão surgir outros, mas esses caem. A gente só tem de prestar atenção e absorver e fazer a nossa parte, seja ela qual for.
Previously…
Além das edições gratuitas que publicamos semanalmente no JUDÃO, com resenhas, resgates de arquivo e outras coisinhas, toda sexta-feira a gente envia uma edição semanal exclusiva para assinantes -- essa mesma que você está lendo agora, ainda que essa específicamente esteja aberta a todos. Na semana passada a gente falou sobre os motivos pelos quais precisamos, em 2026 mesmo, de um filme da Supergirl, bem como os motivos pelos quais precisamos, em 2026 também, de Ana Paula Renault (que não, não foi perseguida e nem foi vítima de nenhum tipo de manioulação no BBB26).
Além disso, também publicamos as resenhas de O Drama, aquele filme com a Zendaya e o Robert Pattinson que o Oda chamou de “filmão” e do novo álbum solo do Flea em que ele, além de baixo, toca TROMPETE. Renan se emocionou e tudo! Tão aqui, as duas. Vem ler!








